O stress põe mesmo os cabelos brancos?

Em tempos de stress é usual atribuir ao trabalho e aos filhos o embranquecimento prematuro do cabelo.

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Os resultados revelam que quanto mais stress, mais pigmento é perdido, e ainda demonstram que com o alívio do mesmo, em alguns casos, o pigmento é recuperado Jorge Franco/Unsplash

Os cabelos brancos, sinal evidente de envelhecimento, quando ocorre precocemente na vida, é de longa data visto como um dos sinais físicos do stress.

Se não vejamos referências históricas como o súbito embranquecimento do cabelo de Marie Antoinette, reportado nas vésperas da sua execução, aos seus 38 anos, em 1793. Baseado neste facto surge a designação de Marie Antoinette Syndrome atribuída aos quadros de rápido embranquecimento do cabelo, no decurso de situações agudas de stress.

Casos anteriores semelhantes, como o de Thomas More antes da sua execução em 1535, e outros posteriores, como o de inúmeros sobreviventes a bombardeamentos da Segunda Guerra foram também reportados.

A cor do cabelo é determinada pelos melanócitos, células produtoras de melanina, o pigmento. Novos melanócitos são produzidos ao longo da vida por células mãe, também conhecidas como stem cells, que vivem no folículo piloso e vão sendo consumidas gradualmente, ao longo dos anos, à semelhança do envelhecimento que ocorre nos restantes tecidos. Na sua falta surge então o cabelo branco!

A ligação ao stress é mais difícil de provar e outras causas podem também ser implicadas como o fundo genético, deficits vitamínicos, tabagismo, condições médicas como alterações da glândula tiroideia, vitiligo e doenças auto-imunes.

Em tempos de stress é usual atribuir ao trabalho e aos filhos o embranquecimento prematuro do cabelo. Em consulta são ouvidas expressões de pais para os filhos como “pões-me o cabelo branco...”; ou de irmão mais velho para o mais novo, mostrando fotografias com intervalos de anos: “Vês, desde que nasceste o pai ficou assim.”

Provavelmente, o embranquecimento do cabelo é multifactorial, mas no que respeita ao stress, estudos recentes desenvolvidos na Columbia University, em Nova Iorque, vieram dar mais achegas ao entendimento de quanto o stress pode influenciar/acelerar o envelhecimento. Os resultados revelam que quanto mais stress, mais pigmento é perdido, e ainda demonstram que com o alívio do mesmo, em alguns casos, o pigmento é recuperado. Estes achados aumentam a evidência de que o envelhecimento não é um processo biológico standard ou linearmente progressivo e que pode ser acelerado, interrompido ou temporariamente revertido.

O stress agudo causa a libertação pelo sistema nervoso simpático, responsável pela resposta corporal de luta, imobilização ou fuga à agressão, de quantidades exageradas de norepinefrina, a hormona do stress, também responsável por sinais físicos de sudação, palidez, aumento da frequência cardíaca e respiratória, hipertensão e outros associados ao stress.

Esta resposta ao stress, útil em situações life saving, quando mantida representa uma ameaça à saúde, com perturbações digestivas, cansaço crónico, ansiedade, depressão, outras perturbações mentais e, mesmo, ao aparecimento de alguns cancros.

A resposta corporal de descompressão do stress traduz-se por inspirações mais profundas e prolongadas e diminuição da frequência cardíaca, que podem ser ajudadas por algumas atitudes individuais. Períodos diários de treinos respiratórios, dieta rica em antioxidantes, boa higiene de sono, exercício de cerca de 30 minutos, meditação e a eventual procura de psicoterapia individual ou de grupo.

Ao nível do cabelo, estudos demonstram que a resposta corporal ao stress mantido tem um papel importante no embranquecimento prematuro do cabelo. A libertação maciça da hormona do stress leva a um super estímulo das stem cells, com o rápido consumo do reservatório existente e suficiente para fornecer melanócitos para muitos e muitos anos. Em apenas poucos dias as células mãe poderão desaparecer e o pigmento poderá não mais ser regenerado.

Com mais estudos é possível que, um dia, o cabelo branco possa ser revertido com uma simples visita ao médico, apto a identificar alterações de saúde cujos sintomas muitas vezes não são óbvios, em vez das sucessivas idas ao cabeleireiro para o colorir.

Em conclusão, se é indiscutível que o envelhecimento se encontra ligado ao embranquecimento de cabelo e a genética ao seu aparecimento mais ou menos precoce, já a ligação dos estados de stress, particularmente os agudos, não é ainda tão clara e provavelmente múltiplos fatores estarão implicados.

Mais estudos ajudarão a clarificar os casos de súbito embranquecimento reportados muito embora não deva ser negligenciado o papel do stress mantido.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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