No passado domingo a mais importante cimeira do clima chegou ao fim, após dois dias de prolongamento para chegar a um decepcionante resultado final. Porém, nem todos terão reparado nesta derrota que vai afectar o planeta. O mundo a acabar e a malta já estava noutra: à espera de ver a bola no Qatar.

Sim, é assumidamente uma frase que se põe a jeito para levar com a crítica do manifesto exagero e escusado alarmismo. O mundo não está a acabar agora, hoje. Mas será assim tão delirante pensar que ele pode acabar tal como o conhecemos num futuro que está muito menos distante do que pensamos? Quanto à parte da "malta a ver a bola", lamento, mas é um puro facto, com raras excepções. Há, naturalmente, muita gente distraída com o mundial do Qatar nestes dias.

É verdade que o mundo não acabou no Egipto, com a 27.ª Cimeira do Clima das Nações Unidas. Mas também é verdade que no último fim-de-semana se decidiu na COP sobre muitos temas importantes que que vão afectar o nosso presente e o nosso futuro. Para quem seguiu os poucos avanços e muitos recuos da COP27, a palavra decidir parece desapropriada, mas não é. Decidir que não se decide é importante. E, neste caso, é uma péssima notícia.

Na COP27 não saímos do plano do carvão para alargar as nossas sentenças de um fim próximo e urgente a todos os combustíveis fosseis. Nas ambições das emissões dos governos, idem aspas. Ficou tudo mais ou menos como se definiu (depois de muita luta para a escolha entre a expressão "phase down" e "phase out", em que a primeira, mais branda e que anuncia uma redução e não um abandono, saiu vitoriosa) em Glasgow na COP26, no ano passado.

Nem tudo foi péssimo. Não deixamos escapar a promessa de que vamos continuar a lutar para manter o aquecimento global abaixo dos 1,5º graus Celsius e que a cada ano que passa, a cada COP que passa, é cada vez mais improvável de cumprir. E, por outro lado, conseguimos pela primeira vez, após muitos anos de discussão, aprovar a criação de um fundo para compensar as "perdas e danos" nos países mais vulneráveis (ou particularmente vulneráveis) às alterações climáticas.

Porém, lamento mais uma vez, mesmo esta difícil decisão que obrigou a cimeira a estender-se por mais dois dias (foi a terceira COP mais longa de sempre) tem o seu quê. É que falta agora saber… tudo. Saber que fundo é este, saber quem paga, saber quem recebe, saber quando, como, onde. É, para já, um fundo vazio. Assim, foi agora criada uma comissão (a maneira mais fácil de adiar uma decisão difícil) que vai decidir que fundo é este. Mas é qualquer coisa e foi essa pequena vitória que saltou para os títulos no desfecho da COP27. Essa pequena vitória e os sonoros lamentos de muita gente decepcionada com mais uma oportunidade perdida para mudar mesmo qualquer coisa.

António Guterres foi dos que não hesitou em proclamar derrota após o acordo final decidido no passado domingo em Sharm el-Sheikh. Quando secretário-geral das Nações Unidas discursou na cimeira avisou que estávamos em excesso de velocidade numa "auto-estrada para o inferno". Mais uma voz exagerada e alarmista ou um líder sensato e lúcido? No final, lamentou: "Sejamos claros: o nosso planeta ainda está no serviço de urgência. Temos de reduzir drasticamente as emissões agora – e este assunto não foi abordado pela COP27". Faltou carregar no travão para abrandar esta viagem na temida auto-estrada,

Enquanto a cimeira mais importante sobre o clima acabava no Egipto, o mundo já estava virado para a fase de aquecimento a decorrer no Qatar para Mundial. Era esse o assunto preferido dos nossos leitores. Ou seja: enquanto o mundo dava mais um passo para uma provável tragédia, "a malta" abastecia-se de tremoços e minis para ver a bola no sofá.

Há uma perspectiva que até pode tornar esta escolha algo compreensível. Afinal, o Mundial do Qatar acaba a 18 de Dezembro. E o fim do mundo não é para já. Mas, a avaliar o interesse sobre o tema, estamos quase, quase. O mundo pode estar a acabar, mas esqueçamos isto agora.

Por lapso, esta newsletter foi inicialmente enviada com a assinatura da jornalista Teresa Firmino. A newsletter é assinada pela jornalista Andrea Cunha Freitas.

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