A dádiva da dádiva

A dádiva é uma arma de sangue, porém esta tem um atributo de fortalecer a continuidade em vez do falecimento. É um acto heróico, essencial à nossa existência como grupo, da mesma forma que votar.

Foto
Nuno Ferreira Santos

Será a minha quinta vez consecutiva. Fá-lo-ei, como habitualmente, no Instituto Português de Oncologia do Porto, coincidentemente no meu dia de aniversário, a 29 de Outubro, por ser a data em que finalizam os três meses de hiato necessário para que tudo corra da forma prevista. Do que escrevo? Ah, caro leitor, de uma coisa tão importante que pode salvar vidas: de uma doação de sangue, mais especificamente da minha próxima dádiva.

Comecei este processo em Setembro do ano passado. Repeti uma, duas, três e esta revela-se a quarta vez de iteração deste acto que considero ser uma das mais puras formas de gentileza que podemos demonstrar e oferecer a outro ser humano. Estabelecendo um paralelo com a frase de Neil Armstrong, é uma pequena porção de fluido para nós, mas uma enorme esperança para todos aqueles que necessitam deste fluxo de vitalidade.

Por isso mesmo, gosto de pensar que esta acção de entregar uma parte de alguns constituintes do meu ser à ciência e a uma eventual oportunidade de ajudar uma outra pessoa é uma forma de aproximar a humanidade, muitas vezes distanciada pela indiferença do quotidiano. Sobretudo porque fui agraciado pela condição de doador universal, sendo o meu sangue do tipo O+ (mais amplo do que eu apenas o O-). Quem tem tanto poder de solidariedade outorgado pela natureza só pode promover o bem-comum ao entregar uma parte relevante desse poder a quem dele necessita.

Ceder sangue é um modo de fazer comunidade. E isto acontece não somente no sentido de cá (quem doa) para lá (quem recebe a doação), mas também no inverso (serviços médicos e legais à quem doa). As doações permitem, em apenas uma hora de duração de todo o procedimento, auferirmos de um conjunto de vantagens diferentes e bastante interessantes. A começar ainda no local da dádiva, onde obtemos uma consulta médica para confirmar se estamos bem de saúde e um lanche logo após a colheita, de maneira a recuperarmos a perda de líquidos e, porventura, das forças.

Mas existem outros benefícios como o estacionamento gratuito durante a dádiva, a recepção de resultados dos exames de despiste a doenças como a sida, a sífilis ou as hepatites B e C, a justificação de faltas profissionais e o seguro do doador de sangue, que prevê uma indemnização em caso de dano, complicações para a saúde ou acidentes no percurso até ao ponto de recolha do sangue. Com estas dádivas das dádivas, o altruísmo prolifera, espelhando o que de melhor existe em nós como seres sociais capazes de superar a brutalidade da guerra e da destruição.

A dádiva é uma arma de sangue, porém esta tem um atributo de fortalecer a continuidade em vez do falecimento. É um acto heróico, essencial à nossa existência como grupo, da mesma forma que votar. Em ambos os feitos damos uma nova vida a quem recebe a nossa oferta – e acreditamos que nós mesmos, devido à bilateralidade desta acção, conseguiremos ter um futuro mais próspero. Então, já sabe o que fazer quando se encontrar num dia de eleições ou perto de um centro de doação sanguínea.

Sugerir correcção
Comentar