Conservação da natureza em Portugal: bolsos rotos, sem notas nem moedas

Notas grandes para destruir e moedas pequenas para cuidar. Algum dinheiro para investigação, mas, em comparação, pouco ou nada para acção. Não há uma solução mágica; há passos na direcção certa. São precisas parcerias entre Governos e filantropos, entre cientistas e conservacionistas.

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ANGELA BENITO/Unsplash

Portugal podia ser incrível para a vida selvagem, com planícies quentes e montanhas frias, entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Podia ser, mas não é. Florestas com várias espécies deram lugar a monoculturas, montanhas com vida deram lugar a paisagens lunares e a grande diversidade e abundância de plantas e animais desapareceu. Em Portugal, conservar o que resta de ecossistemas já não é suficiente. É preciso restaurar e para restaurar é preciso uma visão a longo prazo, um compromisso duradouro e fundos, financiamento, investimento.

Falta investimento para a conservação da natureza: em Portugal, muitos milhões; e no mundo, milhares de milhões de euros. Não são os biólogos que dizem, são os economistas.

Primeiro, para o Estado português a conservação e restauro da natureza não são uma prioridade, têm pouca importância, recursos ou estratégia. Palavra do Tribunal de Contas e do Tribunal Judicial Europeu. Áreas protegidas no papel, degradação de habitats, espécies ameaçadas e estruturas institucionais fracas: é esta a realidade portuguesa de norte a sul. Como consequência, os fundos disponíveis são pouco ou nada.

Segundo, quando há dinheiro ligado à conservação da natureza, o foco tende a ser em pesquisa e não na acção. Em Portugal, o CIBIO, um dos maiores centros de pesquisa ecológica do país, recebeu, em 2019, perto de 150 milhões para research. É importante, mas, em comparação, projectos no terreno recebem uns milhares de euros, ou com sorte, alguns milhões, através de financiamento europeu similar. Uma situação também comum na Europa e no Mundo: o famoso caso do biólogo Enric Sala espelha bem a situação. Um académico cansado de fazer o “obituário da natureza”, passou a conservacionista no terreno.

Terceiro, quando o Estado é ausente, a sociedade civil, na forma de organizações ligadas à natureza, assume informalmente o papel. Um instrumento clássico para financiar conservação e restauro da natureza é o programa Life, mas são obrigatórias fontes complementares — não financia iniciativas a 100% e, em Portugal não é co-financiado pelo Estado. Algo comum noutros países da Europa, como Espanha ou França, o que facilita o acesso a fundos europeus.

Quarto, a filantropia para conservação da natureza em Portugal é rara. O caso da Viridia e da Fundação Belmiro, ambas iniciativas da família Azevedo, são casos isolados. Financiam projectos de norte a sul do país, das praias do Algarve aos desfiladeiros do Douro, com alguma escala.

Quinto, a dependência em medidas de compensação ambiental. O centro de reprodução do lince ibérico em Silves — compensação pela barragem de Odelouca. Uma das maiores áreas dedicadas à conservação da natureza em Portugal é a Herdade da Coitadinha com cerca de 1000 hectares — compensação pela barragem do Alqueva. O Centro de recuperação de abutres e águias, um dos melhores da Península Ibérica em Trás-os-Montes — compensação pela barragem do Sabor. A reintrodução de corço na Serra da Freita, Arada e Montemuro — compensação do impacto dos parques eólicos nas alcateias de lobo ibérico. É um mal menor, mas a conservação da natureza da natureza não pode estar dependente de projectos que destroem, ameaçam ou alteram o mundo natural para se financiar.

Notas grandes para destruir e moedas pequenas para cuidar. Algum dinheiro para investigação, mas, em comparação, pouco ou nada para acção. Não há uma solução mágica; há passos na direcção certa. São precisas parcerias entre Governos e filantropos, entre cientistas e conservacionistas.

É preciso mais investimento, mas é igualmente importante que seja usado de uma maneira eficiente e inteligente, com ideias novas e inovadoras. Apostar em intervenções de “maquilhagem”, como limpeza mecanizada de terrenos, ao invés de restaurar populações de herbívoros; restaurar linhas de água, ao invés de reintroduzir o castor; financiar cabras sapadoras, ao invés de reintroduzir a cabra montês... São soluções a curto prazo, caras e dependentes da mão humana, que não completam ecossistemas, nem restauram processos naturais. Não podem ser uma solução a longo prazo para preservar a biodiversidade.

Um discurso positivo e ambicioso atrai pessoas, um discurso negativo e pessimista afasta. É preciso contar uma história de oportunidade e esperança. O abandono agrícola é uma ocasião única em centenas de anos para devolver áreas à natureza. Há imensas espécies que podem voltar a Portugal se for dada uma chance (castor, cabra montês, águia rabalva, quebra ossos, urso pardo, tartarugas marinhas, focas e muitos outros), os nossos parques naturais, como a Serra da Estrela ou a Malcata, entre outros, podem ser dos melhores da Europa, e ser terreno fértil para o desenvolvimento económico duradouro de zonas rurais. É uma escolha.

É tempo de ver desafios, não problemas. É tempo de sonhar com oportunidades, não de derrotismos. É tempo de acção. A natureza armazena carbono, mitiga e adapta a paisagem às alterações climáticas, dá os recursos para a nossa economia, o ar que respiramos, a comida que temos no prato e torna a nossa experiência humana mais rica, maravilhosa e especial.

A conservação e restauro do mundo natural merece notas grandes, não moedas pequenas. Vamos investir na natureza?

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