Estudantes expulsos de residência em Madrid depois de insultos sexistas a colegas. Tradição ou machismo?

Colegio Mayor Elías Ahuja, em Madrid, expulsou vários estudantes que dirigiram insultos machistas às alunas da residência feminina vizinha, uma suposta tradição. Ministério Público vai investigar se constitui um crime de ódio.

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Estudantes dizem que os insultos são uma tradição entre as duas residências DR

Vários estudantes terão sido expulsos de uma residência universitária espanhola depois de um vídeo viral os mostrar a iniciar uma onda de ameaças e insultos machistas dirigidos às vizinhas da residência universitária feminina Santa Mónica, em Madrid, na noite de domingo, 2 de Outubro, escreveu a agência de notícias Efe.

“P****, saiam das vossas tocas como coelhas, sois umas prostitutas ninfomaníacas, juro-vos que vão todas f**** na ‘capea’ [festejo com touradas amadoras]! Vamos, Ahuja!”, gritou um dos jovens da varanda da residência universitária privada Elías Ahuja.

É uma das residências mais caras da capital espanhola (1200 euros por mês, com alimentação incluída), ligada à Universidade Complutense de Madrid e gerida pela ordem de Santo Agostinho, uma ordem religiosa católica. Depois, as outras persianas dos sete andares de uma das fachadas do prédio levantaram-se e vários homens juntaram-se aos gritos das janelas, numa cena descrita como “intimidante”.

“Não podemos tolerar este comportamento que gera ódio e ataca as mulheres”, escreveu Pedro Sánchez, presidente do governo de Espanha, na rede social Twitter. “É especialmente doloroso ver que os protagonistas são pessoas jovens.”

O Ministério Público de Madrid vai investigar se os gritos e insultos sexistas constituem um crime de ódio, depois de receber uma queixa do Movimento contra a Intolerância, escreve a Efe.

Um porta-voz da residência disse à agência espanhola que vários estudantes tinham sido identificados e expulsos, e que não seriam os únicos. A direcção do Colegio Mayor Elías Ahuja condenou as “manifestações inaceitáveis”, que considerou “incompreensíveis e inadmissíveis na sociedade”.

Segundo a instituição de ensino superior, os estudantes terão obrigatoriamente de participar em cursos de sensibilização para a igualdade de género. De acordo com a nota divulgada na quinta-feira, 6 de Outubro, o regulamento do regime de internato prevê a expulsão dos alunos “em casos graves, como o presente”.

Desde que o vídeo se tornou viral, várias alunas residentes e ex-residentes na Santa Monica disseram aos meios de comunicação espanhóis que a troca de insultos é um ritual entre as duas residências e que o vídeo foi publicado fora do contexto. O jornal El Mundo relata que “é um clássico ouvir Mónicas, p**** todas as noites”.

Apesar disso, na noite de quinta-feira, jovens do partido político espanhol Más Madrid reuniram-se em frente ao Colegio Mayor Elías Ahuja para protestar contra os cânticos sexistas gravados e publicados no TikTok. “Amiga, apercebe-te que não é tradição, é machismo”, lia-se, nas t-shirts que vestiam.

A Universidade Complutense de Madrid (UCM), a maior universidade pública de Espanha, está a “analisar o ocorrido” e a trabalhar para “aplicar sanções aos universitários envolvidos” na acção que “não tem lugar na sociedade e menos ainda na academia”, lê-se, num tweet publicado na quinta-feira, 6 de Outubro.

Já a unidade de igualdade da UCM escreveu numa nota pública que “as expressões sexistas colectivas com ameaças de agressão sexual por parte deste grupo de estudantes exigem uma resposta firme e contundente.” “É mais uma prova de que a educação sexual faz falta neste país”, disse Irene Montero, ministra da Igualdade espanhola.

Em Agosto, o Parlamento espanhol aprovou a lei conhecida como “só sim é sim”, que acaba com a diferença entre abuso e agressão sexual e determina que uma violação ocorre quando não houve consentimento e não apenas quando existiu intimidação ou resistência à violação.

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