Já lá não estás

Sem ti, ficam os ecos, os murmúrios e os suspiros lado a lado com o pó das prateleiras, lado a lado com os livros por abrir, as histórias por contar. Para trás ficam o medo, a incerteza, o vazio e o espaço por preencher, as semanas sem saber de ti nem ninguém, como se tivesses morrido, e morreste.

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Os teus sobrinhos foram à procura de ti, mas já lá não estás. Já lá não estás para sair de casa a voar na bicicleta às sete da manhã arriba cima e o horizonte é teu. Já lá não estás para ver tanto mar... e fazer tantos quilómetros monte acima e monte abaixo para no regresso comprar o pão de sempre na padaria de sempre, ainda no mesmo sítio apesar dos anos, apesar do tempo.

Já lá não estás, assim como já lá não estão os sorrisos e as brincadeiras, a companhia, as gargalhadas, um sem fim de fatias de melancia sempre frescas, sempre prontas a comer, os jogos em cima da mesa, uma casa cheia de gente de porta e braços abertos, de volta, finalmente de volta. Mas o Verão não é eterno, oxalá fosse, e nós, os que ficamos para trás, a contar os dias para a partida, a temer a partida, a negar a partida, a esquecer a partida, a odiar a partida.

A sala e os quartos vazios, uma casa é feita de gente e isto não é uma casa, são fantasmas nas prateleiras a sorrir para a fotografia, olhos nos olhos e nem uma palavra mais, todo o silêncio e a eternidade à espera.

À espera mais um ano para que volte a praia e os teus sobrinhos de mãos dadas com os tios em busca de mais castelos, mais areia, mais aventuras, uma bola de Berlim para cada um e para os tios, os jogos de futebol ao pôr-do-sol, um mergulho logo a seguir, tanto mar, todo o mar e o Verão por inteiro pela frente, sem fim, proibido de acabar.

Não vás para outras terras, terras estranhas, gentes estranhas, a casa precisa de ti, a rua precisa de ti, as gentes precisam de ti, de todos os que partem para longe da vista e da imaginação. Faltam o saber e a calma, a presença de espírito de quem viu, e vê o mundo a girar como que por magia e por artes mágicas consegue, ano após ano, voltar ao ponto de partida, à origem e às raízes apenas e somente para começar tudo de novo. Ciclo vicioso? O gozo do desafio? Ou apenas a vida tal como ela é?

Faltam os conselhos, sempre algo para dizer, o tempo para ouvir, a capacidade para ouvir, ouvir-nos, o abraço, um abraço, a certeza e a segurança de como nada de mal vai acontecer, nada de mal pode acontecer, não agora quando, um ano depois, voltas.

Sem ti, ficam os ecos, os murmúrios e os suspiros lado a lado com o pó das prateleiras, lado a lado com os livros por abrir, as histórias por contar. Para trás ficam o medo, a incerteza, o vazio e o espaço por preencher, as semanas sem saber de ti nem ninguém, como se tivesses morrido, e morreste, mesmo que por uns meses, os meses em que todos esperam em vão para que voltes à vida, e voltas, mas sempre tarde demais.

Quando chegas, já tudo aconteceu, já tudo passou. És apenas uma memória e as memórias de pouco valem quando a aflição aperta. Fazes falta. Fazem todos falta quando estão lá longe. Juntos, seria tudo mais fácil. Ou talvez não. Juntos, nunca chegaria para todos...

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