Morreu José Álvaro Correia, um desenhador de luz poético

Formado pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, o seu trabalho iluminou continuadamente os palcos nacionais desde 2001, tendo-se cruzado com criadores como Nuno Cardoso e Né Barros, Cristina Carvalhal e Ana Rita Teodoro. Tinha 45 anos.

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José Álvaro Correia era um dos mais talentosos desenhadores de luz da sua geração dr

O desenhador de luz José Álvaro Correia, cujo trabalho iluminou sucessivas criações de encenadores como Nuno Cardoso, Carlos Pimenta, John Romão, Mónica Calle ou Cristina Carvalhal, e também de coreógrafas como Né Barros, Clara Andermatt ou Ana Rita Teodoro, morreu esta manhã, em Lisboa, de cancro. Tinha 45 anos.

Formado pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, estreou-se profissionalmente em 2001, embora já fizesse teatro desde os tempos do liceu. Ao longo das duas décadas que se seguiram, afirmou-se como um dos mais talentosos e consistentes desenhadores de luz da sua geração, assinando largas dezenas de criações para os palcos nacionais. O teatro, cuja paixão herdou por via familiar, foi o seu principal campo de trabalho e de experimentação, mas também iluminou espectáculos de dança e de ópera, concertos (entre eles várias edições do festival Jazz em Agosto, de 2007 a 2020), exposições e desfiles de moda.

Entre os encenadores com que mais recorrentemente trabalhou conta-se o actual director artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ), Nuno Cardoso. Cruzaram-se numa produção da Antígona desencadeada pelo entretanto extinto Núcleo de Criação Teatral sob os auspícios da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, e depois na primeira peça de Pedro Eiras, Antes dos Lagartos, embrião da companhia que o encenador viria a fundar, a Ao Cabo Teatro.

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José Alvaro Correia (de verde, à esquerda) com a equipa do Ao Cabo Teatro, em 2013 nelson garrido

Purificados, de Sarah Kane (2002), Valparaíso, de Don DeLillo (2002), e Parasitas, de Marius Von Mayenburg (2003), foram algumas das etapas iniciais dessa colaboração que teria num recente Lear, de Shakespeare (2021), o seu último capítulo. Pelo meio ficaram momentos memoráveis como Despertar da Primavera (2004), Woyzeck (2005), Platónov (2008) ou Coriolano (2014), sempre na companhia de um seu amigo e irmão de palco, o cenógrafo F. Ribeiro.

“O Zé era um criativo extraordinário, um dos maiores da sua geração, e um ser humano exemplar. A luz dele era especial, tinha um estilo poético que é muito raro de encontrar seja onde for, e uma dramaturgia própria. Trabalhámos juntos mais de 20 anos e metade do que eu fiz se deve a ele e ao Fernando, éramos os três”, sublinha Nuno Cardoso ao PÚBLICO, dizendo-se “um bocadinho perdido” diante da “tremenda injustiça” desta morte desatempada.

Lembrando que se perde demasiado cedo não só um criador mas também “um pedagogo”, Nuno Cardoso aponta o legado que José Álvaro Correia deixou fixado, em parte, no Manual Técnico de Iluminação para Espectáculos que co-assinou com Pedro Moreira Cabral (Sete Pés, 2007) e que “influenciou absolutamente toda uma geração de desenhadores de luz”. “Ele não é a única grande referência que veio mudar o panorama nacional, mas é uma delas. No desenho de luz em Portugal há claramente um antes e um depois do Zé”, afirma o director do TNSJ, casa onde José Álvaro Correia trabalhou inúmeras vezes.

Se há uma relação de trabalho que aqui se interrompe inexoravelmente, Nuno Cardoso garante que a sua obra cénica futura continuará marcada pela “sensibilidade” do desenhador de luz que o acompanhou praticamente desde o início da sua vida como encenador. “O Zé não era o meu desenhador de luz, era o meu companheiro de criação, e isso há-de permanecer comigo.”

Se no teatro José Álvaro Correia se cruzou ainda muito regularmente com criadores como Marcos Barbosa, Carlos Pimenta, John Romão, Mónica Calle e Cristina Carvalhal, e com companhias como a Gato que Ladra, o Ensemble – Sociedade de Actores, a Formiga Atómica e a Voadora, foi na dança que encontrou outra das suas parcerias mais frutuosas e felizes, com a coreógrafa Né Barros. Solistas (2005), Dia Maior (2006), With Drooping Wings (2007), Story Case (2009), Segundo Plano (2009), A Praça (2010), Lastro (2015), Muros (2016), Revoluções (2018) e IO – Paisagens, Máquinas, Animais (2019) foram etapas dessa relação criativa.

“Com o Zé Álvaro pude levar mais longe os meus projectos performativos. Solistas (2005) foi a nossa primeira colaboração e, desde então, sucederam-se muitos outros espectáculos que desenhámos. Com uma sensibilidade extraordinária, o Zé captava as nossas intenções e criava o lugar poético para que as ideias se tornassem maiores, mais poderosas. Sempre com elegância e serenidade, comunicava connosco e lançava a sua criatividade e competência. E surpreendia-nos”, comenta a coreógrafa em depoimento enviado ao PÚBLICO, lamentando a perda de “um companheiro” e de “um amigo”.

“Havia nele a inquietação de se desafiar, de arriscar novas hipóteses e dispositivos. Como nos conhecíamos bem, não era preciso muito escrutínio. O olhar dele era muito importante para mim. A luz que acompanhava os corpos era uma luz que os ajudava naquele desejo imanente de fazer sobreviver o gesto. Vou ter saudades.”

O velório de José Álvaro Correia terá lugar esta quarta-feira, a partir das 18h30, na Igreja de Linda-a-Velha. O funeral está marcado para as 11h de quinta-feira, seguindo para o Crematório de Cascais (Alcabideche).

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