Primatas que habitam territórios indígenas estão em menor risco de extinção, diz estudo

Das 521 espécies de primatas, 68% estão em risco de extinção e 93% das populações encontram-se em declínio. Desflorestação é a grande ameaça destes mamíferos, que “são como os canários nas minas”.

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A equipa de investigadores analisou o habitat de 521 espécies de primatas DR

Os primatas são um dos grupos de mamíferos mais ameaçados de extinção a nível mundial. Como habitam maioritariamente as florestas ao longo dos trópicos, muitos dos seus territórios coincidem com os dos povos indígenas. No entanto, não são estas populações humanas as responsáveis pelo declínio daquelas espécies. Antes pelo contrário, a biodiversidade dos primatas é mais rica em territórios indígenas, em muitos casos chega a ser superior até à das áreas protegidas, avança um artigo publicado nesta quarta-feira, na revista científica Science Advances.

“Muitos povos indígenas distinguem-se pela sua língua, cultura e sistema de conhecimento que, ao longo do tempo, lhes permitiu explorar as suas terras de uma forma sustentável, aproveitando a resiliência dos ecossistemas”, aponta Paul A. Garber, investigador e antropólogo do departamento de Antropologia da Universidade de Illionois, nos Estados Unidos, e um dos líderes do estudo agora publicado.

Há vários exemplos em que os povos indígenas usam a constrição na caça dos primatas, segundo o artigo. Nos Camarões, o povo Baka considera que os gorilas e os chimpanzés são animais especiais, relacionados com os humanos através da reincarnação. Já na região do alto rio Xingu, na Amazónia, os povos indígenas evitam quase a 100% a caça de primatas.

Este estilo de vida parece estar associado a uma maior na biodiversidade dos primatas, o que é mais um motivo para a protecção daqueles territórios. “Proteger os direitos à terra, à língua, à cultura e aos sistemas de conhecimento dos povos indígenas representa o passo individual mais eficaz que se pode tomar para proteger as populações de primatas a nível global”, frisa o investigador, num email ao PÚBLICO.

Ao todo, 68% das 521 espécies de primatas estão em risco de extinção e 93% das populações estão em declínio. Dos grupos de mamíferos com grande diversidade taxonómica, como os roedores ou os morcegos, “os primatas representam o grupo mais vulnerável”, avança o artigo. A perda do habitat é a maior causa para esta tendência. Além disso, como estas espécies têm um ciclo de vida lento, tornam-se ainda mais vulneráveis.

Com o objectivo de compreender quais as condições que permitem os primatas prosperar, Paul Garber e Alejandro Estrada, do Instituto de Biologia da Universidade Autónoma Nacional do México, lideraram um estudo alargado sobre a importância dos povos indígenas para a salvação dos primatas. O trabalho teve a participação de mais de 20 autores, apoiou-se em muita literatura científica já publicada, mas também contou com uma análise espacial da relação entre o habitat dos primatas e os territórios indígenas na América Central e do Sul, em África e na região asiática que vai desde a Índia, passando pela China, até ao Sudeste asiático e aos arquipélagos daquela região.

Os resultados são evidentes: apesar das terras indígenas representarem apenas 30% do habitat dos primatas, uma maioria larga – 71% das espécies – habitam estas áreas. Por outro lado, as espécies cujo habitat mais coincide com os territórios indígenas são aquelas com menos probabilidade de estarem ameaçadas de risco de extinção e de terem populações em declínio. Em muitos casos, os territórios indígenas são mais ricos em termos de biodiversidade dos primatas, mesmo tendo em conta as áreas protegidas.

Paul Garber explica este resultado, à partida, contra-intuitivo. “Muitos parques nacionais e áreas protegidas que contêm primatas são usados pelos governos nacionais para gerar lucros do turismo”, adianta o investigador. “Isto requer mudanças na paisagem natural em termos de estradas, hotéis, restaurantes, lojas de lembranças, electricidade, gestão de resíduos e outras infra-estruturas para as centenas de milhares/milhões de turistas que todos os anos visitam estas áreas.”

Embora a biodiversidade de primatas nas áreas protegidas seja maior do que nas áreas não protegidas, estas construções acabam por ter algum impacto. Além disso, “com a presença de turistas, há a probabilidade de transmissão de doenças de primatas humanos para não humanos”, adverte o antropólogo.

Florestas com cicatrizes

Um dos assuntos que o artigo se debruçou foi justamente a consequência da construção de novas estradas na sobrevivência dos primatas. “As projecções actuais avaliam que, por volta de 2050, haverá mais dois milhões de quilómetros de estrada construídos nas regiões de distribuição dos primatas”, lê-se no artigo. Segundo a mesma estimativa, em 2018 existiam 21,6 milhões de quilómetros de estradas em todo o planeta. Além de serem um perigo directo, do ponto de vista dos atropelamentos, as estradas produzem a fragmentação de habitats.

“Há muitas espécies de primatas arborícolas que tendem a não querer descer para o solo”, diz ao PÚBLICO Fernando Ascensão, biólogo do Centro para a Ecologia, Evolução e as Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um dos co-autores do novo artigo. Para estas espécies, uma estrada pode tornar-se numa barreira e dividir populações. O investigador está também preocupado com os efeitos indirectos das estradas. “Nos primatas, o grande impacto é a acessibilidade humana e a destruição do habitat. Com as estradas vem a desflorestação ilegal, a mineração ilegal, a conversão da floresta para o pastoreio”, alerta, dando o exemplo do que se passa na Amazónia.

Por isso, o biólogo defende que é necessário, antes de tudo, avaliar a necessidade real de uma estrada. Depois, é importante definir qual o traçado mais proveitoso para as populações humanas e que, ao mesmo tempo, minimiza os impactos ambientais. Por fim, se houver realmente a construção da estrada, é necessário realizar as medidas de mitigação para reduzir o impacto na biodiversidade envolvente. Isto porque, “assim que uma estrada atravessa uma zona florestal, ela é uma cicatriz que fica para sempre”, sublinha.

Para Paul Garber, a expansão de infra-estruturas que está prevista não pode ser dissociada do papel dos países desenvolvidos. “Temos de reconhecer que nós, cidadãos das nações consumidoras, somos os primeiros impulsionadores da desflorestação, das alterações climáticas e da extinção das espécies. Os Estados Unidos representam aproximadamente 4% da população do mundo, mas consumem 24% dos seus recursos”, aponta. “Os lémures, os macacos, os grandes símios são como os canários nas minas. Se continuamos a destruir e a degradar os seus habitats naturais, num futuro não muito distante os humanos também não serão capazes de sobreviver naqueles habitats.”

Por isso, mais uma vez, o antropólogo recorda a importância dos povos indígenas: “Podemos aprender com eles a melhor forma de usar os recursos naturais de uma maneira sustentável”, afirma. “Temos a oportunidade de mudar o nosso comportamento e temos o conhecimento para saber o que fazer. A pergunta é se os nossos líderes políticos e os cidadãos do mundo têm a maturidade e a honestidade para realizar as mudanças de que necessitamos.”

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