Um Verão inesquecível

Eu sabia que havia algo de errado no tio Fred, sabia-o porque aconteciam sempre coisas estranhas, que eu não podia nem sabia verbalizar, quando estávamos juntos.

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Quando o tio Frederico voltava de França nas férias grandes, eu sentia o estômago insuflar-se de entusiasmo e repulsa. Gostava dele, era um homem de pele morena, muito bonito, todas as mulheres da aldeia queriam namorar com o meu tio Frederico, que toda a gente tratava por Fred, e acredito que em França tivesse o mesmo sucesso com as raparigas e, no entanto, ele mantinha-se solteiro e insondável sobre o tema dos namoros.

Eu sabia que havia algo de errado no tio Fred, sabia-o porque aconteciam sempre coisas estranhas, que eu não podia nem sabia verbalizar, quando estávamos juntos. O tio Fred era o único irmão da minha mãe, bastante mais velho, na altura parecia-me velhíssimo, mas na verdade não tinha mais de 40 anos.

No último Verão em que nos vimos eu tinha 11 anos. Nunca mais o tornei a ver porque aconteceu aquilo e os meus pais acabaram por se separar. Depois daquilo comecei a passar as férias grandes, o mês de Agosto inteirinho, com o pai e com esse lado da família. Até porque desde muito pequena que os Verões na quinta dos avós, em Viseu, eram passados com a família do lado materno, os meus pais, os meus avós e o tio Fred e eu e o meu pai, mesmo que não tivesse acontecido aquilo, sentimo-nos no direito de compensar os Verões perdidos com a família paterna.

Depois do último Verão em Viseu não teria sido capaz de lá voltar. Já antes daquilo acontecer, os últimos dois Verões com a família materna tinham tudo para se tornarem inesquecíveis de maus; entre mim e o tio Fred aconteceram coisas que, vim depois a saber, o podiam, e deviam, ter posto na cadeia durante muitos anos.

Durante a adolescência não pensei praticamente no assunto. Às vezes vinha-me à memória, mas logo abafava as recordações, desvalorizando aquilo que me parecia poder ser uma distorção da minha memória de criança. Raramente recordava Agosto e aquilo que o tio Nini me fazia quando ninguém estava a ver. Ser capaz de esquecer sem esforço é um superpoder que só os inocentes possuem; porém, o crescimento e a perda da candura acabam por fazer luzir na lembrança aquilo que julgávamos esquecido de forma berrante e dolorosamente vívida.

A casa da minha avó Lourdes, a mãe da minha mãe, ficava no topo de uma colina, o acesso era feito através de três ou quatro degraus muito extensos e íngremes. À noite, depois dos adultos se empanturrarem com comida e vinho, vínhamos todos apanhar fresco, contavam-se histórias, ria-se a bom rir de coisas do passado e o meu tio Nini insistia sempre em ficar comigo ao colo.

Lembro-me que me era desconfortável a forma como me abraçava pela cintura ou os beijos que me dava no pescoço, fazendo-me crer que era algo sem malícia. Segundo dizia, “as cócegas foram inventadas para fazer rir os meninos que pensam que são adultos”. Cócegas, beliscões no rabo, abraços demasiado demorados, carícias nas costas quando me encontrava de blusa ou em fato de banho eram algumas das coisas que me pareciam inapropriadas mas nunca o suficiente para poder falar sobre isso, até porque eram feitas em frente a toda a gente e ninguém parecia estranhar.

Sim, também me lembro que me dizia que era uma menina demasiado séria para a idade, que era especial, que era pena eu não ter percebido ainda, e que me ia dar livros a sério para ler porque sabia que já estava preparada para entender certas coisas do mundo dos adultos. No último Verão em que estivemos juntos, o tio Fred emprestou-me um livro do Nabokov para eu ler, fazendo-me jurar a pés juntos que nunca contaria aos meus pais ou aos avós que tinha sido ele a dar-me aquilo. O que se passou semanas depois foi de conhecimento público. Não vou contá-lo aqui. Nem sempre um Verão inesquecível significa que foi bom.

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