General Agostinho Costa: ataque russo a reunião “de alto nível” na origem de “purga” nos serviços de segurança ucranianos

Zelensky anunciou no domingo o afastamento de Ivan Bakanov, um seu amigo de infância e chefe dos serviços de segurança ucranianos, e ainda da procuradora-geral, Irina Venediktova, devido a alegadas ligações da Procuradoria com Moscovo.

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Prédio da Câmara dos Representantes danificado após ataque russo em Vinnytsia, Ucrânia Reuters

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afastou no domingo o chefe dos serviços de segurança (SBU). Para o general Agostinho Costa, esse afastamento pode estar relacionado com uma alegada falha de segurança relacionada com um ataque russo em Vinnytsia, que, segundo o general, tinha como alvo uma reunião de “alto nível”.

“Estas demissões e afastamentos no SBU são o epílogo do que parece ser o resultado de uma falha de segurança relacionada com um ataque que destruiu uma messe — ou clube de oficiais — em Vinnytsia [Centro da Ucrânia] na passada quinta-feira”, indicou o general Agostinho Costa, vice-presidente do Centro de Estudos Eurodefense-Portugal, após recorrer a fontes que considerou “relativamente credíveis e em termos de argumentação muito plausíveis”.

Esta é a versão oficial do Ministério da Defesa da Rússia, que após o ataque afirmou que tinha como alvo uma instalação militar e uma reunião do comando da Força Aérea Ucraniana. “A 14 de Julho, mísseis Kalibr baseados no mar de alta precisão atingiram a Casa de Oficiais da Guarnição em Vinnytsia”, disse o ministério russo no Telegram.

De acordo com o Serviço de Emergência da Ucrânia, 23 pessoas morreram no ataque, incluindo três crianças. E os “três mísseis russos foram direccionados a um prédio com escritórios”, garantiram as autoridades ucranianas.

No entanto, o general Agostinho Costa acredita na versão da “reunião de alto nível”. “Houve efeitos colaterais, é assente que dois mísseis atingiram o clube de oficiais, mas um outro míssil terá sido interceptado pela antiaérea ucraniana e provocando danos num prédio, com baixas civis.”

“Zelensky terá ficado muito irritado, e compreende-se. Houve uma circunstância muito semelhante durante um ataque à base de Yavoriv [a 13 de Março], perto de Lviv, que estava repleta de estrangeiros. Os ucranianos falaram em 30 mortos, e os russos em cerca de 200”, assinalou. “Na sequência deste ataque, o então chefe local do SBU também foi afastado”, precisou.

No domingo, Zelensky anunciou a demissão de Ivan Bakanov, um seu amigo de infância e chefe dos serviços de segurança ucranianos (SBU, herdeira do KGB após a independência em 1991), e ainda da procuradora-geral, Irina Venediktova, devido a alegadas ligações da Procuradoria com Moscovo.

O Presidente ucraniano revelou ainda que mais de 60 oficiais do SBU estão a trabalhar “contra a Ucrânia” nos territórios controlados pelos separatistas russófonos e pelas tropas russas, e anunciou “651 processos por traição e colaboracionismo”.

Na perspectiva do general Agostinho Costa, o ataque da passada quinta-feira em Vinnytsia foi determinante para esta nova “purga” nas mais altas esferas da liderança de Kiev.

Na reunião de Vinnytsia, cidade situada a oeste da capital Kiev, próxima das fronteiras com a Moldova e Roménia, estaria em análise “um acordo de fornecimento de aeronaves de combate à Ucrânia”, disse o general.

A insatisfação de Zelensky com o desempenho dos quadros que compõem o seu círculo mais restrito parece acentuar-se e diversos analistas indicam que estas decisões se destinam a reforçar o seu poder interno.

“Zelensky não está satisfeito com o desempenho dos quadros do seu círculo próximo. Ainda há pouco tempo demitiu o governador político de Kherson, por não ter havido nenhuma contra-ofensiva relevante na região”, assinalou o analista militar, apontando também o caso do governador de Kharkiv, demitido há cerca de dois meses.

O vice-presidente do Eurodefense-Portugal recordou ainda o sucedido na primeira ronda de negociações de paz entre as delegações russa e ucraniana, a 28 de Fevereiro, na Bielorrússia, quando Denis Kireev, um ex-banqueiro que integrava a equipa enviada por Kiev, “foi alegadamente eliminado sob a acusação de ser pró-russo”.

“Sempre que têm existido situações de quebra de segurança, em que há mortos ocidentais, Zelensky reage desta forma, pune demitindo os quadros. Ainda há pouco tempo, a 31 de Maio, também com a anuência de Zelensky, foi demitida Lyudmyla Denisova, provedora para os direitos humanos e quando faltava um ano para cumprir o mandato”. Uma decisão do Parlamento, mas com o aval do palácio Mariinsky, a residência oficial do chefe de Estado.

“Foi Lyudmyla Denisova quem divulgou as notícias — que acabou por reconhecer serem falsas — sobre violações de bebés por soldados russos. Passou essas informações no Parlamento italiano com a intenção de chocar a opinião pública… e foi demitida sem apelo nem agravo sob a acusação de uma fraca organização dos corredores humanitários”.

Agostinho Costa também não exclui a existência de tensões políticas no círculo governamental em Kiev, em particular entre Zelensky e os altos comandos militares.

“A relação de Zelensky com o chefe de estado-maior general das Forças Armadas, Valerii Zaluzhnyi, não é muito brilhante”, afirmou.

“Zaluzhnyi é mais pragmático, raciocina em termos militares, e [parece contestar] a insistência [do Presidente] em manter até hoje [20 de Julho] a localidade de Siverskyi [Leste] cercada praticamente por três lados, porque decorre na base de Ramstein [Alemanha] a reunião de ‘doadores’, as reuniões mensais em que as potências ocidentais se reúnem para definir que material enviam para a Ucrânia”.

Notícia alterada às 14h40. Título alterado para atribuir declarações. Incluído contexto.

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