O lago Mead encolhe e deixa à mostra barris e cadáveres

O rápido declínio dos níveis de água do Lago Mead, nos Estados Unidos, tornou-se uma fonte de fascínio mórbido tanto para visitantes como para moradores. Uma zona que já foi brindada por um efervescente turismo náutico hoje pode parecer um espectáculo de horror ambiental.

The Hoover Dam from the water at Lake Mead on June 14. MUST CREDIT: Photo for The Washington Post by Roger Kisby �
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A barragem de Hoover vista das águas do lado Mead no passado dia 14 de Junho Roger Kisby/The Washington Post
Lines of past water levels, known as “bathtub rings,” at Lake Mead on June 14. MUST CREDIT: Photo for The Washington Post by Roger Kisby �
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Os antigos níveis de água do lago Mead são visíveis nas encostas - chamam-nos "os aneis da banheira" Roger Kisby/The Washington Post

Pareciam ser apenas dois professores de educação inclusiva prestes a embarcar, em pleno feriado, numa manhã de pesca ao robalo no lago Mead.

Matt Blanchard e Shawn Rosen acomodaram-se na lancha de cinco metros, colocaram cervejas no gelo e esperaram a vez pela última partida da doca junto à grande massa de água que rapidamente desaparece. Foi só quando o motor do velho Bayliner já estava a trabalhar que Rosen mencionou o motivFo oculto para aquela excursão em meados de Junho.

“Esperamos encontrar na viagem de hoje, além de peixes, barris”, disse Rosen. “Está toda a gente a tentar encontrar os barris.”

À medida que o maior reservatório de água dos Estados Unidos ficava a cerca de um quarto de tamanho anterior, os barris ganharam um significado novo e terrível. Os vestígios humanos descobertos num barril enferrujado no mês passado - suspeitos de resultarem de uma execução realizada pela máfia há décadas - não são, contudo, as coisas estranhas que apareceram na lama. Também houve revólveres, carrinhos de bebé, caixas de equipamentos, latas vintage, óculos de sol Prada, munições, esqueletos humanos falsos, ossos humanos de mandíbula reais, pontas de flechas antigas, blocos de cimento para ancorar embarcações, dezenas de barcos afundados e quantidades incalculáveis ​de lixo.

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Os professores de ensino inclusivo Shawn Rosen, de 31 anos, e Matthew Blanchard, da mesma idade, no lago Mead Washington Post/Roger Kisby

Os níveis de água em declínio tornaram-se uma fonte de fascínio mórbido tanto para visitantes como para moradores de longa data. Num lugar onde antes se festejava alegremente em barcaças e lanchas, agora os americanos vagam pelo Oeste devastado pelo calor, em busca de destroços. Surgiram grupos online dedicados a documentar o dramático desaparecimento de um lago que fornece electricidade para 350.000 casas, bem como irrigação e água potável para cerca de 25 milhões de pessoas em todo o Sudoeste.

Rosen e Blanchard não estavam à procura de cadáveres dentro de barris. O porto náutico de Las Vegas é o que Rosen chama de um canal privado de notícias. “As pessoas só dizem disparates”, referiu o professor do ensino inclusivo de 31 anos, que, além do trabalho na área pedagógica, é membro da Guarda Nacional do Exército. Foi aí que Rosen ouviu a lenda sobre Bugsy Siegel, um mafioso que ajudou a desenvolver a zona de hotéis e casinos em Las Vegas, sobre como Siegel supostamente armazenou os ganhos ilícitos em barris atirados para o fundo do lago Mead.

“Estamos à espera de jóias”, disse Rosen. “Onde há cadáveres, há tesouros.”

O facto de o lago Mead ficar em terreno federal, dentro de uma das primeiras áreas de lazer dos americanos, desencorajou um pouco a realização de uma caça ao tesouro como deve ser. É ilegal examinar as margens com detectores de metal ou pescar destroços submersos com grandes ímanes, ainda que as autoridades por vezes apanhem, em flagrante, pessoas a fazer essas duas coisas.

“Estamos a ver a História a acontecer”, disse Dean Weigel, também conhecido como Dean of Machines graças ao seu canal do YouTube sobre conserto de carros. Weigel conduziu quase duas horas do local de trabalho, no Nevada National Security Site, para espreitar barcos que foram afundados no passado e, hoje, são exibidos como estatuetas pós-apocalípticas num jardim de esculturas no deserto.

“Simplesmente não posso acreditar”, disse Weigel, maravilhado com uma lancha espetada em posição vertical numa bacia ressequida. “Aqui nós deveríamos estar o quê? Cerca de 15 metros debaixo de água?”

Um lago que desaparece

Há muitas maneiras de medir o declínio do lago Mead – uma massa de água criada na década de 1930, quando a represa de Hoover captou o rio Colorado – e todas elas são sombrias. O “anel da banheira”, a parte esbranquiçada da encosta do deserto de Mojave, é um lembrete constante do que o lago já foi. Agora, este anel está muito mais espesso, com a porção branca atingindo quase 55 metros de altura.

Ao lado da rampa de lançamento do porto de Hemenway, o Serviço Nacional de Parques colocou placas que indicam onde o nível da água incidia em diferentes anos. São necessários apenas 24 passos para descer a ladeira entre a placa correspondente ao nível da água de 2018 e a de 2021. Contudo, para chegar onde a água está agora – apenas um ano depois – temos de dar mais 250 passos.

“Está a esvaziar. Está a despenhar-se”, confirma um funcionário público que trabalha no lago, que falou sob anonimato porque não estava autorizado a prestar declarações. “Não está a desaparecer lentamente como durante a seca dos últimos 20 anos. Desde o ano passado, está a escoar.”

A criação do lago Mead impulsionou passeios de barco e uma zona de lazer que, hoje, é apenas uma sombra do que um dia foi. Há duas décadas, cerca de 1200 barcos entravam no lago todos os dias a partir de dez rampas de lançamento; agora, um dia bom no lago significa que 50 a 60 barcos foram para a água, segundo o Serviço de Parques. O recuo da água torna quase impossível para a entidade, assim como para as demais marinas, manter as instalações no local.

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Miguel Arroyo trabalha na passagem das condutas de água ao longo da encosta do lago Mead Roger Kisby/The Washington Post

Recentemente, Miguel Arroyo, de 56 anos, estava a cavar uma vala de cerca de 122 metros na lama recém-exposta da margem do lago. O objectivo era estender as canalizações do serviço público até ao porto de barcos de Las Vegas. É um trabalho a que já está habituado. “Sempre que é preciso fazer estas coisas, chamam-nos”, disse Arroyo.

A costa em declive da praia de Boulder é ladeada por bermas de terra batida. Foi nessas zonas paralelas que o Serviço de Parques construiu parques de estacionamento que, com o constante recuo da linha de água, tiveram de ser repetidamente deslocados, juntamente com as fileiras de contentores e casas de banho portáteis. Só em 2022, o lago perdeu cerca de seis metros de altura. Uma descida de apenas 30 centímetros do nível da água pode traduzir-se em seis metros de costa, dependendo da inclinação da praia.

“Em algumas áreas, significa 122 metros adicionais de costa”, disse Justin Pattison, vice-superintendente da Área Nacional de Recreação do Lago Mead, numa visita recente ao local. “Não conseguimos acompanhar”, disse Pattison, “está a cair muito mais rápido do que qualquer um esperava.”

As medições oficiais do nível do lago são asseguradas pelo Bureau of Reclamation, a agência federal que gere a represa de Hoover. Na semana passada, a superfície do lago Mead estava 318 metros acima do nível do mar, ou 28% da capacidade, um recorde de baixa. A cada quinze dias, um funcionário da barragem entra numa das quatro torres de captação de betão e baixa um fio-de-prumo até o nível da água para fazer uma medição exacta.

Quando Patti Aaron se mudou para a área de Las Vegas em 1999, as tais torres de captação estavam quase totalmente submersas. Agora, esses cilindros gigantes parecem monólitos a sair da água.

“É preocupante”, disse Aaron, que se reforma este mês como porta-voz da represa de Hoover. “Atingimos um novo mínimo a cada dia.”

O Sudoeste do país enfrenta agora o vigésimo terceiro ano de seca hidrológica, um fenómeno agravado pela queima de combustíveis fósseis por humanos. Espera-se que estes impactes da crise climática na região – que ficou mais quente, mais seca e com menos neve nas montanhas – persistam, mesmo que as populações sedentas continuem a crescer. Este ano, as autoridades mantiveram mais água a montante para proteger a geração de energia no lago Powell, outro reservatório do Rio Colorado, o que esvaziou o lago Mead.

A descida do nível da água já reduziu em 13% a capacidade de a barragem gerar energia, pois um lago menor significa menos pressão nas turbinas e uma produção energética menos eficiente. As autoridades federais estão cada vez mais preocupadas com a capacidade de Mead e Powell em continuar a fornecer electricidade no futuro.

“A bacia do Rio Colorado enfrenta mais riscos do que em qualquer outro momento da história moderna”, disse Tanya Trujillo, Secretária-adjunta da Água e da Ciência da tutela da administração interna, num discurso este mês.

As palavras de Trujillo ecoaram as preocupações de Camille Calimlim Touton, comissária do Bureau of Reclamation. A responsável afirmou numa audiência no Senado, no passado mês de Junho, que as autoridades precisam de fazer grandes cortes na distribuição de água de Mead e Powell no próximo ano, na ordem de 20 mil milhões a 40 mil milhões de metros cúbicos de água. Os estados da Califórnia, Arizona e Nevada usaram um total combinado de cerca de 28 mil milhões de metros cúbicos do rio Colorado no ano passado.

Isso pode significar menos água para a agricultura nas regiões agrícolas da Califórnia e do Arizona, que produzem cerca de um quarto das frutas e vegetais do país.

E também pode significar mais descobertas bizarras a surgir na lama do lago Mead.

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Faith Lippincott, 45 anos, e a sua filha de dez anos, Addy, num barco outrora submerso no Lago Mead The Washington Posto/Roger Kisby

Horror ambiental

As dezenas de carpas mortas, assim como os abutres que sobre elas circulavam, surpreenderam Mark e Luanne Realy quando, no início de Maio, o casal chegou à lancha que possuem na doca de Boulder.

O lago tinha sido palco de lembranças agradáveis desde que o casal se mudou para a região em 2006 - de passeios de barco a caminhadas, passando pelo registo fotográfico de tempestades e águias americanas. Agora, Mead parecia um espectáculo de horror ambiental.

“Se tivessem feito um filme e colocado no canal de ficção científica, ninguém acreditaria”, disse Mark Realy, um técnico de telecomunicações. “Mas estou a viver isso.”

Após a visita, Luanne Realy, uma formadora de pessoas à procura de emprego, criou um grupo no Facebook chamado Lake Mead Drying Up e começou a publicar fotos e notícias sobre o problema. Em 5 de Maio, após vestígios humanos de dois indivíduos terem sido encontrados na lama, a formadora escreveu: “Talvez não seja seguro ir ao lago Mead”.

O primeiro corpo, encontrado no início de Maio, estava no interior de um barril deitado na lama ao lado da lancha do barco Hemingway. O barril estava corroído o suficiente para que um visitante pudesse espreitar para dentro, de acordo com o Serviço de Parques. A polícia estimou que a vítima havia sido baleada nos anos 1970 ou início dos anos 1980, com base nos sapatos Kmart que o cadáver trazia calçados. O FBI agora está a investigar o caso. Um grupo de filantropos locais doou cinco mil dólares para pagar os testes genéticos.

“Tem a assinatura da máfia”, disse Geoff Schumacher, vice-presidente do Museu da Máfia em Las Vegas. “Um tiro na cabeça. Uma execução, aparentemente. Provavelmente à queima-roupa.”

A descoberta levou Schumacher a mergulhar na história da máfia de Las Vegas. Os gângsteres mais proeminentes naquela época vinham da máfia de Chicago e eram conhecidos por roubar os lucros dos casinos para financiar operações noutras cidades. Schumacher recentemente escreveu uma coluna para o Daily Mail identificando três pessoas ligadas à máfia que desapareceram naquela época, incluindo aquele que é, na sua opinião, uma provável vítima: um anfitrião de casino que administrava um resort no lago Mead e colocou o próprio barco à venda pouco antes de desaparecer em 1976.

“Quem matou aquela pessoa e a atirou para o lago dentro de um barril certamente não era um especialista em mudanças climáticas”, refere Schumacher. “Talvez à medida que o lago continue a recuar, mais segredos sejam revelados. ”

Outras ossadas foram encontradas por irmãs que faziam paddleboarding, um desporto que é feito com uma prancha de surf e com remos. Elas encontram uma mandíbula humana enterrada na areia.

As autoridades acreditam que os ossos pertençam a alguém que se afogou no lago, o que tem acontecido com muitas pessoas ao longo dos anos, incluindo um homem num fim-de-semana do passado mês de Junho.

A equipa do Serviço de Parques está agora a receber chamadas quando as pessoas encontram ossos de animais na praia, uma vez que temem se tratar de mais vestígios humanos. Pessoas que vasculham a praia com detectores de metal à procura de peças de valor – os chamados beachcombers – também descobriram esqueletos que eram de plástico. Estes objectos eram colocados debaixo de água há muito tempo por instrutores de mergulho para entreter os clientes.

As costas começaram a apresentar riscos para os visitantes do lago Mead. O nível da água desceu tão rápido que o que parece ser terra firme é, muitas vezes, apenas uma fina camada de terra queimada pelo sol. Sob esta crosta delicada de terra pode haver um pântano de lama capaz de “sugar” pneus. Foram tantos os carros e camiões ficaram presos ao tentar se aproximar do lago que uma rede de voluntários surgiu para salvá-los. O grupo autodenomina-se SNORR, que significa Southern Nevada Off-Road Recovery. Já salvou mais de 500 pessoas este ano.

Ean Quiel, o director do grupo sem fins lucrativos, descreveu um cenário típico: “Olá, tenho um Jeep, sou muito cool, vou passear na praia e andar de Jet Ski – até que, de repente, o Jeep afunda na lama”.

“Não é como a lama normal a que estamos acostumados”, disse Quiel. “É lodo do leito do lago que esteve submerso ao longo de 30 anos. É uma coisa realmente desagradável.”

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Viatura atolada na lama do lago Mead no dia 15 de Junho Roger Kisby/The Washington Post

Os voluntários – um grupo de cerca de 60 entusiastas de actividades todo-o-terreno – resgataram pessoas em busca de barris, bem como carrinhas de reboque que tentaram responder a um pedido de ajuda. Na quarta-feira à noite, o SNORR recebeu uma chamada acerca de um Dodge Ram branco preso em Government Wash, uma enseada do lago muito procurada por campistas e desportistas todo-o-terreno.

Tratava-se de um casal mexicano com três filhos que visitava a área pela primeira vez. Eles estavam a caminho da costa para fazerem um mergulho nocturno quando os pneus começaram a patinar. “Tentamos ir por ali e vimos essa areia. Ai, meu Deus”, disse Eusevio Valles, de 38 anos, que estava a conduzir.

Brandon Sky, um dos voluntários que respondeu, rapidamente estudou o problema e desenhou uma estratégia. “Uma cinta de reboque e um puxão para trás e a viatura sai num segundo”, disse Sky. Em cerca de 20 minutos, depois de puxar Dodge Ram com um guincho, a família voltou para o acampamento.

Sky despediu-se pensando que que talvez não fosse a última vez que veria a família mexicana. Com o lago Mead agora transformado numa poça de lama gigante, Sky resgatou algumas pessoas com tanta frequência que as conhecia pelo nome.

“Tente por favor manter-se no caminho certo, o que não é fácil”, disse Sky ao condutor enquanto este partia. “Mas sim, pode descer por ali.”


Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post