O novo Bomfim de Pedro Lemos: a “casa de família” que quer ser “um dos melhores restaurantes” do Douro

O chef, detentor de uma estrela Michelin na sua casa do Porto, dobra a aposta no Pinhão comandando um novo restaurante na Quinta do Bomfim, da Symington. Alta cozinha, tradição e a arte calorosa da confecção em fogão e forno a lenha: é o Bomfim 1896 with Pedro Lemos.

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Pedro Lemos no Bomfim 1896 Nelson Garrido

No piso superior de um antigo armazém de vinhos, logo à entrada da Quinta do Bomfim, no Pinhão, assenta, desde 10 de Junho, o restaurante com pratos clássicos e toque contemporâneo, que o chef Pedro Lemos, que mantém uma estrela Michelin no seu restaurante homónimo no Porto, e a família Symington quiseram trazer ao Douro. Após o sucesso do restaurante pop up, a Casa dos Ecos, aberto durante a pandemia, surge o Bomfim 1896 com um modelo diferente. O foco continua a ser o “tradicional, mas melhor”. Se pelos Ecos se pretendia vivenciar a “casa do caseiro”, o novo restaurante é a “casa de família”.

A cozinha, comandada por Lemos ao ritmo do fogo, em plano aberto, é inspirada “nas cozinhas de grandes chaminés de antigamente”, que habitam nas memórias de infância do chef, cujos padrinhos são oriundos de Santa Marta de Penaguião. “Não queremos esconder nada. Queremos fazer parte da experiência”, afirma.

É na chama viva, nas brasas e no fogão a lenha que se cozinham os pratos que aquecem a alma de quem por cá passa. O fogo implica a retirada de tecnologia e “obriga a ter sensibilidade”.

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

A acompanhar as criações do chef, os vinhos da Symington: “vinhos com longo estágio, vinhos do Porto Single Harvest Tawny de produção restrita e garrafas raras de Portos Vintage”, especificam em comunicado. Mas não só. O objectivo dos envolvidos, avança Pedro Lemos, “é promover a região, não só a família”. Estão ainda incluídos na carta alguns vinhos estrangeiros, fruto da actividade da empresa de distribuição.

O primeiro contacto para o projecto aconteceu há quatro anos, ainda antes da ideia para a criação da Casa dos Ecos — que garantiu a Pedro Lemos o título de “melhor chef de cozinha” na primeira edição do prémio nacional para o turismo de vinhos. Por causa da pandemia e atrasos no licenciamento, explica Pedro Lemos, o Bomfim 1896 ficou em hibernação. Agora, o intuito é voltar a abrir os Ecos, “tão cedo quanto possível”, e manter os dois espaços de forma a se complementarem.

“Fazer um dos melhores restaurantes da região”

À chegada, a lareira, os sofás, as fotografias e quadros que pontuam as paredes com a história da família Symington, fazem o bar parecer a sala de estar da casa. A oliveira que se destaca ainda antes de chegarmos à zona de refeições quase toca as traves de madeira clara que tapam o céu. Ao longo do espaço, estendem-se as portadas, que nada mais são do que uma “janela para o Douro”, diz o chef. Hoje não estão abertas, são precisos o clima e vento certos. Quando estão, a experiência é “completamente diferente”.

No almoço de apresentação, esta quarta-feira, dia 29, começou por ser servido, em louça personalizada e de marca portuguesa, um couvert de pão de centeio de Favaios, azeite biológico da Quinta do Ataíde e requeijão de ovelha (3 euros).

Para entrada, enguia fumada pousada em pão de brioche, creme de iogurte, sementes de mostarda, rabanete melancia e negro e maçã verde, finalizados com funcho e cebolinho (18 euros). Para complementar, o primeiro rosé do Douro da família Symington, lançado este mês de Junho, feito a partir de uvas do vale da Vilariça.

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A entrada com enguia fumada, pão brioche, creme de iogurte, sementes de mostarda, rabanete e maçã verde. Nelson Garrido

Os ingredientes utilizados na confecção vêm de “todo o país e não só”. O objectivo é trazer o “melhor”, para “fazer um dos melhores restaurantes da região”, enaltecendo-a ao mesmo tempo. Um tributo que vai dos pratos às pessoas, visto que “85 por cento” dos membros da equipa são da região.

Enche agora o copo um Altano, Reserva de 2019, composto a partir de quatro castas: Viosinho, Códega do Larinho, Rabigato e Gouveio. É servida uma caldeirada de peixe do dia braseado – desta vez foi robalo rodeado por batata, pimento vermelho, bivalves, lula, gel de pimento vermelho e gel defumado (tinta de choco), banhado no molho da caldeirada (38 euros).

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Caldeirada de robalo com batata, pimento vermelho, bivalves, lula, gel de pimento, gel defumado e molho da caldeirada. Nelson Garrido

Seguimos para o prato de carne: cordeiro de leite com bulgur, curgete grelhada, flor de curgete recheada com uma “surpresa”, ligado pelo molho do assado (36 euros). Ao lado, tal como em casa, uma terrina com uma porção adicional para repetir ou partilhar. A acompanhar, o tinto Quinta do Ataíde, de 2016, 100 por cento Touriga Nacional. No cardápio, constam também opções vegetarianas.

Para finalizar, “a jóia da coroa”: um Dow's, com 20 anos. Um vinho cujo lar é, precisamente, a Quinta do Bomfim desde 1986, o que inspirou o nome do restaurante. Para sobremesa, um mil-folhas com creme de baunilha defumado, molho de caramelo salgado e uma bola de gelado de caramelo (12 euros).

Cordeiro de leite com bulgur, curgete grelhada, flor de curgete recheada com uma “surpresa”, ligado pelo molho do assado. Nelson Garrido
Mil folhas com creme de baunilha defumado, molho de caramelo salgado e uma bola de gelado de caramelo. Nelson Garrido
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“Ganhar o pulso à máquina”

De momento, o restaurante funciona de quarta-feira a domingo, para almoços (das 12h30 às 15h) e jantares (das 19h às 22h), com uma lotação máxima de 57 pessoas.

Pedro Lemos tem estado no Pinhão todos os dias, mas a intenção é ir-se dividindo entre o novo espaço e o restaurante que tem na Foz. Será o chef residente Gonçalo Pinho, natural de Lamego, a assumir a cozinha na sua ausência.

Em Julho, adianta o chef, o plano é já haver um menu de degustação. “Estamos a ganhar o pulso à máquina”, diz. No futuro, a ideia é o bar funcionar sempre, tirando proveito do enoturismo da Quinta, até com uma carta de petiscos.

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"Estamos a ganhar o pulso à máquina", diz Pedro Lemos. NELSON GARRIDO

A resposta tem sido muito positiva, sublinha Pedro Lemos, que conta já ter tido clientes que, desde a abertura, voltaram “três e quatro vezes” ou visitantes que queriam levar a equipa para Hong Kong. “Eu adorava vê-lo novamente em Nova Iorque”, interrompeu, em tom despedida, e no timing perfeito, uma cliente que vive em Manhattan.

Para o chef portuense, esta é uma “possibilidade” de fazer o que gosta, de proporcionar “felicidade”. “Gosto mesmo muito disto”, confessa.

Pedro Lemos crê que esta iniciativa, não sendo a primeira do género na região, possa inspirar o aparecimento de outras. No próximo ano, acredita, existirão mais chefs a irem para o Douro, fruto de parcerias com outras quintas.


Texto editado por Luís J. Santos

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