Flatlantic: a empresa que produz pregados com o “mar em casa”

Na praia de Mira, perto de Aveiro, fomos visitar a maior empresa da Europa que produz pregados em regime de aquacultura em terra e que se quer expandir.

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Os pregados no fundo dos tanques Adriano Miranda
PEIXE DE VIVEIRO FLATLANTIC EM MIRA�
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Os pregados no fundo dos tanques Adriano Miranda
PEIXE DE VIVEIRO FLATLANTIC EM MIRA�
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Um técnico segura num pregado Adriano Miranda
PEIXE DE VIVEIRO FLATLANTIC EM MIRA�
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Os pregados acumulam-se no fundo dos tanques ADRIANO MIRANDA
PEIXE DE VIVEIRO FLATLANTIC EM MIRA�
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O ambiente do fundo marinho é recriado com a escuridão e a luz azul ADRIANO MIRANDA
PEIXE DE VIVEIRO FLATLANTIC EM MIRA�
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Um técnico coloca os peixes numa máquina que separa consoante o seu peso para seguirem para um novo tanque ADRIANO MIRANDA
PEIXE DE VIVEIRO FLATLANTIC EM MIRA�
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A Flatlantic também está a produzir linguados ADRIANO MIRANDA

Do chão, não é possível quantificar o tamanho da estrutura que traz o mar às instalações da Flatlantic. É preciso subir umas escadas para observar a enorme largura e a profundidade daquele poço, que desce abaixo da linha do mar. O fundo está cheio de água que chega ali por um tubo com dois metros de diâmetro ligado ao mar, e que suga a água ajudado pela gravidade. No fundo do poço, dez bombas estão prontas para retirar a água e puxá-la até ao cimo da estrutura por meio de tubos, que podem chegar a despejar sete metros cúbicos de mar a cada segundo. Esta água é decantada e filtrada num patamar alguns metros acima do solo, e depois, com a ajuda da gravidade, entra de novo para debaixo da terra e segue para os tanques onde milhares de peixes vivem e crescem.

“Temos o mar em casa, por isso é que nos chamamos Flatlantic”, diz Renata Serradeiro, administradora-executiva da maior empresa de aquacultura em terra firme de pregado da Europa, e uma das maiores do mundo, daí a palavra “flat”, referente ao aspecto achatado daquele peixe. “Temos um perfil térmico de água muito favorável para esta espécie”, explica a bióloga, que trabalha há mais de duas décadas em aquacultura.

Poço onde chega a água do mar ADRIANO MIRANDA
A água do mar é puxada por bombas ADRIANO MIRANDA
E depois é decantada e filtrada ADRIANO MIRANDA
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ADRIANO MIRANDA

Do topo do poço é possível ver parte das instalações da empresa: várias linhas de tanques e outros edifícios baixos que ocupam 82 dos 206 hectares daquele pedaço de costa detidos pela empresa, junto ao mar, na praia de Mira, perto de Aveiro. Esta é uma segunda vida para as instalações, depois de serem adquiridas em conjunto com a marca Acuinova, em 2017, pelo grupo Oxy Capital, que, entretanto, mudou o nome da empresa.

A Acuinova pertencia à espanhola Pescanova e as suas instalações foram construídas de raiz e terminadas em 2009, depois de um aval do Governo ter atribuído ao projecto o selo de potencial interesse nacional (PIN). Apesar do investimento de 140 milhões de euros, a aventura não correu bem. Além de ter causado resistências às associações ambientalistas pelo empreendimento estar inserido numa área de Reserva Ecológica Nacional (REN) – na altura, o estudo de impacto ambiental foi favorável ao empreendimento –, houve um problema com um dos dois emissários de captação de água do mar, que levou à morte de milhares de peixes.

O resultado foi um layoff de parte dos trabalhadores, dívidas e finalmente a insolvência. A empresa, que prometia a produção de 7000 toneladas de pregado por ano numa primeira fase e 10.000 toneladas no futuro, não atingiu mais do que 4397 toneladas em 2012. Renata Serradeiro ainda vive com este legado. Em tribunal, já ficou provado que foi um erro de construção que causou o estrago de um dos dois emissários que captam a água do mar, e que terão de ser as construtoras a reconstruí-lo. Mas, por enquanto, só metade das instalações é que está a funcionar, alimentada pelo emissário em funcionamento.

Os tanques estão distribuídos em linhas ao longo das instalações da empresa ADRIANO MIRANDA
Para que o ambiente do pregado seja mais escuro, os tanques estão tapados ADRIANO MIRANDA
Um técnico trabalha num dos tanques das instalações ADRIANO MIRANDA/PUBLICO
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Mesmo com estes desafios iniciais, a Flatlantic já conseguiu produzir 3200 toneladas de pregado em 2021 e obteve um volume de negócios de 28 milhões de euros. Noventa por cento do peixe é para exportação: Espanha, França, Itália, Países Baixos e Alemanha. Neste momento, conta com 170 trabalhadores. E Renata Serradeiro apresenta uma rota ascendente para os próximos anos. A expectativa é aumentar a produção para 6000 toneladas de pregado, assim que a reconstrução do outro emissário estiver terminada e a empresa puder usar a outra metade das instalações.

Desde 2017, a empresa já investiu 20 milhões de euros nas instalações. “Não éramos autónomos e não tínhamos área comercial”, explica Renata Serradeiro. No ano passado, foi inaugurada uma maternidade de peixes, por 5,5 milhões de euros, que fornece a aquacultura. Em Novembro de 2021, iniciou a produção de linguado usando água em circuito fechado. É um passo inicial para expandirem a produção deste peixe. Para isso, vão construir novas instalações em módulos. A ideia é, daqui a dez anos, produzirem 10.000 toneladas de linguado anualmente. O projecto está à espera de ser aprovado e irá custar 250 milhões de euros na sua totalidade. Quando estiver tudo implementado, irá empregar mais 350 pessoas. Mas, até lá, quem impera ali é o pregado, com a sua vida programada a par e passo.

De tanque em tanque

“Temos um software para três milhões de peixes”, explica Renata Serradeiro, referindo-se ao programa que ajuda a monitorizar os indivíduos ao longo do seu curso de vida de perto de dois anos, enquanto vão passando de tanque em tanque e engordam até cerca de dois a 2,5 quilos. Durante a visita pelas instalações, o percurso feito acabou por ser o inverso da vida do pregado: primeiro observámos peixes com maiores dimensões, depois peixes mais novos e finalmente os ovos, as larvas e os pequeníssimos peixes do berçário.

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Renata Serradeiro, administradora-executiva da empresa de aquacultura Flatlantic ADRIANO MIRANDA/PUBLICO

O pregado é um peixe achatado e arredondado, com os dois olhos para cima, que se esconde no fundo do mar e, no contexto da aquacultura, no fundo dos tanques. Ali, a maioria dos indivíduos adultos é cinzenta, mas há alguns que são mais escuros, e uns poucos que têm cor de areia. No primeiro tanque onde parámos, o movimento não era muito e acontecia praticamente todo junto ao chão, onde os indivíduos se acumulavam em camadas de dois ou três peixes.

“Os peixes agrupam-se naturalmente. Se tivermos uma densidade muito baixa, ficam stressados. Trabalhamos muito para o seu bem-estar”, refere a bióloga. É por isso que vivem ali numa escuridão azulada. Os tanques estão tapados com toldos montados, o que permite, com a ajuda de luz azul, recriar o ambiente do fundo marinho. Cada tanque, que ali tem 110 metros quadrados de área, conta com uma tabela de informação sobre o seu conteúdo: naquele existem 3700 quilos de peixe e cada peixe tem um peso médio de 1438 gramas. Fazendo as contas, o número total rondará os 255 indivíduos.

Quando os peixes que estão no sector da pré-engorda chegam a um determinado peso são retirados do tanque para passarem para o sector da engorda ADRIANO MIRANDA
Quando os peixes que estão no sector da pré-engorda chegam a um determinado peso são retirados do tanque para passarem para o sector da engorda ADRIANO MIRANDA
Um técnico distribui os peixes para uma máquina que separa autonomamente cada indivíduo de acordo com o seu peso ADRIANO MIRANDA
Os peixes seguem numa máquina que separa autonomamente cada indivíduo de acordo com o seu peso ADRIANO MIRANDA
Os peixes seguem numa máquina que separa autonomamente cada indivíduo de acordo com o seu peso ADRIANO MIRANDA
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O fluxo de entrada e saída de água do mar no tanque é contínuo. O emissário que colecta a água vai buscá-la a centenas de metros de distância da costa, uma água de muita qualidade, sem poluição, segundo Renata Serradeiro. Um segundo emissário, despeja o líquido efluente mais perto da costa.

“O mar foi classificado de Rede Natura e nós não somos uma fonte de poluição que vai mudar essa realidade”, explica a bióloga. “As fezes dos peixes são nutrientes que vão servir para alimentar no mar organismos de níveis tróficos inferiores. A diluição é tão grande que o próprio ecossistema receptor lida com os dejectos”, acrescenta a perita, garantindo que as análises feitas às populações de organismos bentónicos – que vivem no fundo do mar – não apresentam problemas.

A segunda paragem foi numa linha de tanques de pré-engorda, que está debaixo de uma estrutura maior, escura, onde se caminha lá dentro. Ali, os peixes são bastante mais pequenos. De quando em vez, ouve-se a chegada de alimento a um tanque, distribuída automaticamente por um dispersor aéreo. Por causa da luz azul, não é possível ver o alimento a cair, só o respingar da água e a reacção em polvorosa dos peixes, que saem do fundo, como uma nuvem, e sugam o alimento que caiu. “Eles vêem bem”, assegura a bióloga.

Os peixes que morrem nos tanques são retirados para uma caixa e analisados por uma equipa que verifica a causa da morte ADRIANO MIRANDA
Cada tanque tem informação sobre os peixes que contém ADRIANO MIRANDA
Os peixes são alimentados várias vezes ao dia através de um sistema automático ADRIANO MIRANDA
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Embora a alimentação usada para os peixes tenha um certificado de sustentabilidade e o método automático garanta que não haja desperdícios, Renata Serradeiro admite que a alimentação é a maior pegada da empresa. Mas relembra que os peixes são dos animais mais eficazes a converterem os alimentos que ingerem. “Temos de produzir alimentos para os humanos, a produção de peixe é que tira menos recursos do planeta”, refere a bióloga, acrescentando que os alimentos que compram para os peixes são “certificados e sustentáveis”.

Ajuda da genética

Por último, depois de uma viagem de carro até ao outro lado das instalações, entramos no edifício do berçário, onde é necessário trocar o calçado por botas, vestir uma bata e lavar as mãos para minimizar o risco de contaminação. Aqui, estamos perante as fases mais vulneráveis do ciclo de vida dos pregados, antes de desenvolverem um sistema imunitário eficaz e serem vacinados. Por isso, os tanques do edifício são alimentados por água em circuito fechado que é continuamente reciclada e, nesse processo, filtrada e esterilizada.

Há indivíduos que são escolhidos para se reproduzirem com ajuda da genética. “Identificamos os familiares, fazemos a genotipagem, não vamos acasalar irmãs com irmãos, ou primas com primos, senão temos problemas de consanguinidade”, adianta Renata Serradeiro. O ambiente é condicionado para que haja sempre indivíduos em período fértil. Depois, as fêmeas são massajadas para largarem os ovos e os machos são estimulados para expelirem o esperma. A fecundação é externa.

O pregado nas primeiras fases de vida ADRIANO MIRANDA
O pregado nas primeiras fases de vida ADRIANO MIRANDA
O pregado nas primeiras fases de vida ADRIANO MIRANDA
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ADRIANO MIRANDA

Não temos oportunidade de observar este processo inicial, mas vemos o resultado, numa espécie de sequência acelerada do desenvolvimento, à medida que vamos saltando de sala em sala e de tanque em tanque (bem mais pequenos, adaptados às necessidades): primeiro os ovos, quase microscópicos; depois as larvas, que se movimentam como pequeníssimos girinos; de seguida organismos um pouco maiores, com um dos olhos a mudar de posição, já a caminho da sua morfologia achatada; finalmente, “minipregados”, de cor ainda bastante mais clara, mas que já sabem fazer aquilo que se espera deles: assentarem no fundo, ingerirem o que lhes dão e alimentarem uma empresa em crescimento.

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