E que tal experimentar um tinto de Cornifesto?

A empresa que mais faz pela biodiversidade da videira em Portugal é a Real Companhia Velha. Não faz só campos ampelográficos. Pega nas castas e faz vinhos com elas.

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Pedro Silva Reis Júnior e Jorge Moreira, da Real Companhia Velha. DR

Alvarelhão Branco, Alvaraça, Branco Gouvães (ou Touriga Branca), Dozelinho Branco, Esgana Cão, Moscatel Ottonel e Samarrinho, nas castas brancas. Depois, nas tintas, Donzelinho Tinto, Malvasia Preta, Preto Martinho, Cornifesto, Rufete, Tinta da Barca e as menos estranhas Tinta Francisca e Bastardo. Eis o material que a Real Companhia Velha (RCV) já usou para lançar 13 novas referências a partir de dez vindimas, mas com muito trabalho prévio na vinha.

Liga-se a Jorge Moreira para pedir um comentário em jeito de balanço de uma década de vinificações com a colecção Séries da RCV e começamos por ouvir uma resposta que traduz o seu pensamento sobre o estado da arte dos DOC Douro. “Balanço, oh, isso é muito cedo”. O enólogo sabe que alguns dos vinhos lançados são procurados por um nicho de consumidores e por alguma restauração exigente. E até sabe que outras empresas estão também a apostar nas castas que, no Douro, ainda se apelidam de secundárias (por comparação ao famoso quinteto da Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão), mas ele repete a tese de que “o Douro, em matéria de vinhos tranquilos, é uma criança que começou a andar”. “Neste sentido, como enólogo no Douro, sinto-me um privilegiado porque todos os dias estou a aprender com os desafios que a diversidade de castas e os nossos micro-terroirs nos colocam. Imagine que eu trabalhava na Borgonha. Ou mesmo só no vinho do Porto. Era uma pasmaceira”.

A questão da precocidade do balanço do projecto Séries tem um suporte técnico. “É preciso termos em conta que primeiro que uma vinha nova – de uma casta que não conhecemos bem – nos dê dados com alguma fiabilidade serão necessários dez anos. Depois, imaginando que vinificamos a partir daqui, vamos precisar de dois anos até lançarmos o vinho. E para se perceber como ele evoluirá no tempo precisaremos de outros dez anos. Tudo somado, são 22 anos. E é por isso que eu digo que estamos no início da aventura”.

Claro que Jorge Moreira reconhece que um Samarrinho com idade poderá assemelhar-se a vinhos brancos internacionais com notas químicas ou que algumas castas tintas recuperadas poderão caminhar para a delicadeza dos famosos tintos de Borgonha, mas o que ele quer mesmo é que elas expressem o terroir de onde são originárias. E isso requer muito tempo. “Uma coisa é percebermos quais são as tendências, outra é copiarmos vinhos de outras regiões. São coisas diferentes. Do ponto de vista enológico, se eu, no Douro, vindimar mais cedo ou mais tarde, acabo por fazer vinhos correctos e que estão dentro das tendências. Mas não é isso que queremos na RCV. O que queremos é pegar nas castas que são nosso património, que estão adaptadas à região e fazer vinhos respeitando aquilo que elas são, respeitando a sua identidade que, de resto, vão atrair consumidores que estão saturados de receitas idênticas em todo o lado”.

De uma forma ou de outra, o mérito do projecto Séries é o contínuo risco no lançamento de vinhos varietais de castas desconhecidas. “E não há outro caminho. Ter castas por ter castas não é nada do outro mundo, fazer vinhos todos os anos com elas, perceber como evoluem, isso sim é já requer uma estratégia planeada a curto, médio e longo prazo. A diversidade de castas só se transforma em riqueza se com as suas uvas fizermos vinhos. Caso contrário, esse discurso da riqueza das nossas castas é só bazófia”.

Se a sorte dá trabalho, a RCV apanhou uma onda favorável porque, como realça o enólogo, o início do projecto Séries coincide com três factores determinantes: “o primeiro foi a mudança do perfil dos vinhos a nível internacional (vinhos mais frescos e que revelem o terroir); o segundo teve a ver com a consciencialização de que, no Douro, estávamos a padronizar em excesso os vinhos (eram todos mais do mesmo) e o terceiro foi o arrojo do Dirk Niepoort em fazer um vinho chamado Charme, provando que, no Douro, com as castas do Douro, se poderiam fazer tintos de grande nível, elegantes, de acordo com as tendências e com capacidade de evolução, mas sempre com o carácter do Douro”.

PS – a conversa com o Terroir ocorreu numa manhã em que Jorge Moreira se dirigia para a linha de enchimento que iria engarrafar um vinho de Baga, feito a partir de uma vinha nova... no Douro. A RCV é um poço de surpresas.

Crítica

Nome Real Companhia Velha Séries Cornifesto Tinto 2018

Produtor Real Companhia Velha

Castas Cornifesto

Região Douro

Grau alcoólico 13,5 por cento

Preço (euros) 28

Pontuação 92

Autor Edgardo Pacheco

Notas de prova Um tinto com notas rústicas e frescas, onde se destacam cheiros de cereja, morangos e massas em fermentação. Tudo muito puro. Boca delicada, toque mineral, ligeiro vegetal e taninos firmes. Ou seja, o contrário de um vinho madurão, extraído e pesado.

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