Nas vinhas velhas de Pegos Claros descobriu-se a Tintinha

Vem de Palmela, Península de Setúbal, este Primo 2016, tinto que nos dá a conhecer uma ilustre desconhecida entre as cerca de 250 castas autóctones portuguesas.

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Nem o enólogo Bernardo Cabral nem outro qualquer trabalhador da Herdade Pegos Claros, da região da Península de Setúbal, sabiam que videiras eram aquelas (três, note-se bem) que estavam numa vinha com mais de 100 anos e em que tudo o resto é Castelão. Andaram pelas redondezas a conversar com agricultores mais antigos e a consultar registos noutras herdades, mas nada. Solução: mandar fazer estudos de ADN. Resultado: a casta chama-se Tintinha.

Vilha velha na Herdade de Pegos Claros. DR
Vilha velha na Herdade de Pegos Claros. DR
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Como isto de castas é um granel, na origem dos próprios nomes ou na fascinante criatividade para replicar nomes sempre que a casta muda de lugar, poder-se-á considerar que, pelo seu diminutivo, a Tintinha fosse assim uma variedade de trazer por casa. E, de facto, álcool e cor não são com ela, mas, no que diz respeito à acidez, o caso muda de figura, pelo que, para não variar, entramos naquele quadro descrito como ‘os antigos sabiam-na toda’. Segundo Bernardo Cabral, “a Tintinha, no meio de vinhas onde predomina o Castelão que pode apresentar alguns desequilíbrios de ácidos —, pode ter sido plantada como efeito corrector da acidez. Se estivesse em quantidades maiores na vinha ainda se poderia pensar que serviria para compensar eventuais quebras de produção, mas, como o Castelão raramente falha, creio que a Tintinha pode estar cá para equilibrar os lotes”.

A primeira vez que Bernardo Cabral lhe deitou os olhos em cima ficou com a vontade de a vinificar em separado, mas, com três plantas, nem uma micro-vinificação conseguia fazer, de maneira que, de alguns anos a esta parte, a Herdade de Pegos Claros tem vindo a aumentar a área com Tintinha. Ainda não existe um hectare com a casta, mas o enólogo espera, em breve, lançar um vinho varietal de Tintinha.

Enquanto tal não acontece, temos este Primo 2016 (belo nome), que no seu lote tem 85 por cento de Castelão e 15 por cento de Tintinha. Que o vinho é muito sério, lá isso é, mas, se tal vem da tal Tintinha, aqui não podemos dar garantias, até porque quase todos os tintos de Pegos Claros têm uma identidade tão própria que se apanha de imediato em prova cega. O que significa que um Castelão de Pegos Claros é sempre feito com respeito pelo terroir e não como uma imitação de tintos concentrados de castas nacionais e internacionais em qualquer terroir.

Ainda assim, este Primo apresenta-se com um factor diferenciador face aos clássicos da casa. É que, ao contrário destes, a sua evolução faz-se à laia de um Vintage, em ambiente, digamos assim, redutor. Ou seja, enquanto os tintos clássicos Pegos Claros são fermentados com engaço em lagares enormes e à temperatura ambiente, passando depois para cubas de cimento, madeira de estágio e depois regresso ao cimento antes do engarrafamento, num processo onde há grandes trocas com o oxigénio, o Primo faz-se o ao contrário. As uvas fermentam com engaço em barricas ao alto e, depois de prensadas, o vinho regressa às mesmas. Fica por aqui um ano, com engarrafamento de seguida, mas só libertado para o mercado com anos de garrafa. Ou seja, assim de uma forma muito abusiva — e sem querer provocar a malta do vinho do Porto —, diremos que os clássicos Pegos Claros são tawnies enquanto o Primo é um vintage.

Crítica

Nome Pegos Claros Primo Tinto 2016

Produtor Herdade de Pegos Claros

Castas Castelão (85 por cento) e Tintinha (15 por cento)

Região Península de Setúbal

Grau alcoólico 14,3 por cento

Preço (euros) 57

Pontuação 94

Autor Edgardo Pacheco

Notas de prova Aromas finos do Castelão, com destaque para a groselha, ginja ou casca de cereja e certas notas de vides a queimar na vinha. Na boca é volumoso, mas fresco por via de uma acidez que fica muito tempo. Se este vinho é assim em 2022, daqui por dez anos deverá estar magnífico.

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