O ajuste

De que me valerá a beleza em volta quando o amor já não fizer sentido?

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"Eu, que tantas vezes me fiz ao caminho para chegar ao amor, tenho pena dos que nem sequer arriscam a vivê-lo" Maria Inês

Tinham pouco mais de 20 anos. Na pele lisa havia pouca vida inscrita, apesar das dores da adolescência: são marcas internas, uma espécie de hera que trepa e fica por ali invisível. Aproximaram-se um dia por amor, por aquilo que queriam que fosse o amor. Primeiro a paixão, a comida que mal passava na garganta, as palavras que não saíam, ou que saíam desajustadas, mesmo quando se queria impressionar o outro.

Um dia, arrisca-se a dizer o quanto gosta do cheiro dela, e ela, um dia, aparece com um algodão cheio desse perfume suave que a descrevia. O perfume, esse inicial, depois irá desaparecer. O amor pode engolir o fascínio. Deixamos de ver mesmo quando continua tão presente.

Dormiu com o cheiro dela semanas a fio antes de dormir com ela. E quando, por fim, os corpos se uniram, algo correu mal. Já não eram as palavras desajustadas, mas os corpos que não se ajustaram. Pareceu-lhes uma má experiência. Tinham pouco mais de 20 anos e quase nada para contar. Acabaram ali antes de começarem. Um nó na garganta comum. O algodão com o cheiro dela mantinha-se debaixo da almofada. Uma angústia do tamanho do mundo estava agora a alimentar-se de todas as dúvidas. Correu mal? O que aconteceu? Acabou? Para sempre?

Não tardou muito até que ela lhe deixasse uma carta na caixa de correio. Uma carta a sério que explicava, pela mão dela, que não era por os corpos não se terem ajustado que a história tinha de ficar por ali.

Voltaram a encontrar-se. O nó na garganta continuava lá. As palavras ainda saíam a medo. Evitavam o toque por medo. Vinte anos, pouco mais do que isso. O amor inicial parece o jogo das escondidas: vamos à procura até encontrar – temos sempre de ir.

Viveram essa paixão muito tempo. Um bilhete deixado, um dia, na estante da casa que partilharam dizia: “O tempo que passo contigo não chega para matar as saudades que eu tenho de ti.” Um bilhete guardado para sempre. O perfume extinguiu-se, é verdade, mas o amor ficou para sempre.

O que fazemos hoje, nem sei se se aproxima do verbo tentar. Vamos e voltamos tantas vezes de mãos vazias. Ninguém quer ir deixar uma carta à caixa de correio, muito menos assumir que, se as coisas correram mal fisicamente, se pode estar outra e mais uma vez. Não há algodões com o perfume dela ou dele. Há um cheiro do efémero que paira no ar e que acompanha a velocidade deste tempo. A reciclagem chegou há muito ao nosso coração, mesmo pressentido que, embora o descartável se adeque a estes dias, é ainda o amor que procuramos. Só que perdemos as ferramentas no caminho. Encontrámos as virtuais, que nos dão a falsa sensação de controlo.

A paixão (e o amor depois) é feita de muitas tentativas, de muitos avanços e recuos. Tantas noites mal dormidas. Tantas angústias alimentadas a perguntas que nem sempre vêm com resposta.

As pessoas querem o amor, mas exigem que seja fácil e, de preferência, sem se exporem àquilo que temem ser o ridículo. O ridículo é, precisamente, não lutar por ele; levantarmo-nos três horas depois de os corpos se terem tentado ajustar e nunca mais voltarmos; ou alimentarmos conversas no espaço virtual como se ensaiássemos caminho para que neste futuro breve uma máquina com voz nos bastasse para dizer: “Bom dia. Gosto de ti.”

Vamos a caminho disso. Há muito que entregámos as armas com que se lutava pelo amor. A batalha é complexa e, de facto, só os duros resistem.

E se o romantismo acabar, e se não tentarmos o ajuste, e se não voltarmos atrás para repetir o que podia ter sido melhor, então de que falarão os livros, as canções e os filmes? De que me valerá a beleza em volta quando o amor já não fizer sentido?

Eu, que tantas vezes me fiz ao caminho para chegar ao amor, tenho pena dos que nem sequer arriscam a vivê-lo.

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