A libertação colectiva de Roriz e Saramago

Em ano de centenário do nascimento de José Saramago, Olga Roriz inspira-se na obra do escritor e cria Deste Mundo e do Outro para a CNB. De 23 a 26 de Junho, no Teatro Camões, Lisboa, os corpos quotidianos lutam por serem um só.

Foto
Deste Mundo E Do Outro; Ensaio; Dança; CNB; Companhia Nacional de Bailado; Teatro Camões; Lisboa; © Hugo David 2022; HUGO DAVID

Na primeira imagem de Deste Mundo e do Outro, coreografia de Olga Roriz para a Companhia Nacional de Bailado (CNB) a partir da obra de José Saramago, uma mulher avança para o centro do palco e, com um longo tronco de bambu, parece desenhar um círculo à sua volta. A espaços, ganha um ar mais ameaçador, como se quisesse proteger o seu espaço, mas o impacto dessa cena inicial é, antes de mais, o de alguém que delimita o seu mundo, que constrói um lugar a partir do qual observa o que a sua vista alcança, e onde constrói a sua fortaleza e as suas certezas. É também um primeiro assomo de uma linguagem telúrica que se instalará na primeira parte do espectáculo, de corpos numa intensa ligação com o chão, cedendo à gravidade e ao peso dos dias e das falhas da humanidade.

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