Otimização das condições para o sucesso escolar

Em vez de o horário do professor de apoio ser distribuído à medida que a escolaridade progride para colmatar o insucesso, de acordo com uma lógica remediativa, seria preferível canalizar o máximo de horas de apoio pedagógico para o 1.º ano, apostando numa lógica preventiva.

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Nelson Garrido/Arquivo

O insucesso escolar é como as desculpas. À semelhança destas últimas, mais do que ser remediado, deve ser evitado. Porque o insucesso escolar tem um preço demasiado alto a pagar. E não, não estou a falar do impacto económico nem a fazer contas de quanto custa a retenção de um aluno no mesmo ano de escolaridade, sendo que estes custos não são de somenos importância.

O preço a que estou a referir-me é aquele que o insucesso tem para o próprio aluno, para a sua família e também para o seu professor. É que o insucesso escolar dói, o insucesso magoa as crianças que o experienciam. E preocupa as famílias desses alunos, que muitas vezes não sabem qual a melhor forma de ajudar os filhos. Também causa frustração nos professores, que se veem a braços com turmas demasiado numerosas, sem capacidade para dar um apoio individualizado aos estudantes que dele necessitam.

No entanto, esse insucesso poderia ser evitado ou pelo menos minimizado, se fosse invertida a lógica que o perpetua. Ou seja, de acordo com as normas vigentes, regra geral espera-se pelo final do 1.º ano de escolaridade para identificar os alunos que necessitam de apoio pedagógico para que passem a beneficiar do mesmo no 2.º ano. Entretanto, os alunos em questão já sentiram a experiência do insucesso, passando a correr atrás do prejuízo, através de medidas de recuperação das aprendizagens em atraso.

Perante este cenário, importa perguntar como poderá ser invertida esta situação. De acordo com a minha experiência profissional, a inversão desta lógica assenta na otimização das condições de aprendizagem dos alunos no início da escolaridade, com um reforço de recursos docentes em sala de aula, na modalidade de coadjuvação pedagógica. Assim, em vez de o horário do professor de apoio ser distribuído à medida que a escolaridade progride para colmatar o insucesso, de acordo com uma lógica remediativa, seria preferível canalizar o máximo de horas de apoio pedagógico para o 1.º ano, apostando numa lógica preventiva.

Para circunscrever as possibilidades de haver insucesso no início escolaridade é fundamental ir à raiz do problema, contrariando o modelo de trabalho solitário da monodocência no 1.º ciclo. A antecipação do apoio pedagógico para o 1.º ano, atribuindo horas de apoio a outro professor em modalidade de coadjuvação pedagógica, possibilita o apoio aos alunos com ritmos de aprendizagem diversos, contribuindo para que essa diferença de ritmo, perfeitamente natural e expetável, não se converta em dificuldades de aprendizagem.

As crianças são as grandes beneficiárias deste modelo pedagógico. Com este apoio dado de forma consistente e continuada, a maioria consegue aproximar o seu nível de conhecimentos do dos colegas, transitando para o 2.º ano em melhores condições, mesmo que subsistam as naturais diferenças de ritmo na aprendizagem, que podem ser minimizadas e ultrapassadas ao longo da escolaridade. O facto de esse apoio ser dado em sala de aula, ao invés de as crianças saírem precocemente para outro espaço, permite que as disparidades entre os alunos se esbatam com maior naturalidade, sem expor desnecessariamente aqueles que necessitam de uma ajuda acrescida.

Mas a tónica não deve ser apenas centrada na prevenção do insucesso, mas também, e sobretudo, na otimização das condições de aprendizagem de todos os alunos. No 1.º ano, as crianças ainda são pouco autónomas e necessitam de apoio para as primeiras tentativas de concretização das aprendizagens, dispersando-se com o tempo de espera, até chegar a sua vez de ter a atenção individualizada do professor. O prolongamento desses tempos de espera conduz à irrequietude e à distração, com uma perda de eficácia no desenvolvimento das tarefas propostas.

Com dois professores em sala de aula, em parte do horário letivo, esse tempo de espera diminui, aumentando as oportunidades de todas as crianças serem ajudadas, inicialmente em tarefas tão triviais como organizar-se no caderno diário ou gerir os materiais escolares, e depois a escrever os seus primeiros textos, a ensaiar tentativas de leitura, a realizar contagens e a testar diferentes estratégias para resolver um problema matemático, entre outras propostas.

A existência de mais recursos humanos para lidar com a diversidade de ritmos de aprendizagem não privilegia apenas as crianças que evidenciam algumas fragilidades, mas também aquelas que têm maior facilidade na aprendizagem e necessitam, por esse motivo, de estímulo acrescido para se sentirem desafiadas na sala de aula. A coadjuvação facilita, assim, a diferenciação pedagógica em sala de aula, possibilitando o acompanhamento de todos os alunos, respondendo às suas necessidades de aprendizagem e aos seus interesses pessoais.

A atenção mais individualizada a uma criança é algo de profundamente afetivo que cria um forte vínculo emocional, determinante para uma relação professor/aluno significativa, que é a base de todo o percurso escolar marcante e diferenciado, porque diferenciador. A resposta aos interesses pessoais dos alunos é central para que estes possam criar os seus projetos de aprendizagem pessoais e de pequeno grupo, relacionados com os seus talentos, aptidões e vontades, de modo a que cada aluno possa conhecer-se, desenvolver-se e potenciar as suas capacidades, desejos e sonhos.

Por outro lado, o facto de haver dois docentes em sala de aula permite a realização de atividades pedagógicas ativas, recorrendo a material didático, de modo a implementar o ensino experimental da Matemática ou das Ciências ou, ainda, a desenvolver tarefas que exijam maior autonomia por parte dos jovens alunos, como a realização de trabalho de projeto em pequenos grupos.

Claro que o modelo de coadjuvação pedagógica tem um preço a nível financeiro. Mas se impedir ou, pelo menos, diminuir as necessidades de apoio pedagógico subsequentes, em vez de ser entendido como um custo, poderá ser encarado como um investimento. No qual todos saem a ganhar. As crianças principalmente.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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