O veneno da humilhação

“(…) precipitei-me na humildade para esquivar a humilhação, removi os meios de agradar para esquecer que os tivera e que com eles havia fascinado; o espelho foi para mim de grande socorro: encarreguei-o de me ensinar que eu era um monstro.” Jean-Paul Sartre, As palavras, 1963

A humilhação é daqueles temas que, tal como o tempo para Agostinho de Hipona, sabemos o que é se ninguém nos questiona sobre o assunto, mas, se nos obrigam a explicar, a evidência esfuma-se. Como diferenciar a humilhação de noções irmãs tais como a vergonha, o desprezo, a desonra, a desqualificação, a exclusão ou o sentimento de injustiça? Como explicar um sentimento vivido muitas vezes de forma tão íntima e silenciada? Não é fácil explicar o que é de facto a humilhação quando toca a esfera privada, pessoal, mas também coletiva, ou em contexto histórico ou geopolítico. Ouvimos, nos últimos tempos, falar de humilhação em várias situações como no caso Chris Rock e Will Smith, no da cadeira ausente para Ursula von der Leyen na Turquia, ou as declarações de Macron sobre “não humilhar a Rússia”, fazendo eco ao Tratado de Versalhes e à humilhação do povo alemão que teria levado à ascensão do nazismo.

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