Numa entrevista publicada esta semana no Azul o paleontólogo e escritor britânico Henry Gee disse à jornalista Andréia Azevedo Soares estar cansado de tanto “estardalhaço” à volta da crise climática. “A gritaria alarmista só atrapalha”, defendeu numa frase levada a título.

Previsivelmente, a opinião de Henry Gee chamou a atenção. A caixa de comentários dos leitores do PÚBLICO será apenas uma pequena amostra das inúmeras leituras, mas também deixou bem claro que nem todos gostaram da sugestão de recorremos a uma “persuasão gentil” para falar sobre os problemas na Terra causados por nós.

Em nenhum momento, Henry Gee desvalorizou a crise que estamos a viver. Quer se diga num sussurro ou num grito, sabemos que ela existe e o escritor britânico assume o desafio de uma forma bastante lúcida. Basta ler a entrevista completa.

Henry Gee, autor do livro A Vida na Terra - Uma Breve História, não está sozinho. Aliás, ele próprio admite que foi buscar inspiração a David Attenborough, que alguém já classificou como o mais popular influencer do ambiente. Mas acredito que a questão mais importante não estará sequer no tom que usamos, mas no que dizemos.

Importará assim tanto gritar que os Alpes estão mais verdes e que isso não é um bom sinal? Que os microplásticos são um problema? Importa chamar o Tribunal Europeu de Contas para que nos mostre que - apesar de tudo o que dizemos (baixinho ou numa gritaria) - a União Europeia falhou a meta de gastar 20% do orçamento do período entre 2014 e 2020 na luta contra a crise climática? Diz o tribunal que se gastou apenas 13%.

Qual o efeito que uma lista de 10 números sobre o ambiente tem nas pessoas? Ficamos a saber, por exemplo, que “em 1995, cada cidadão produzia apenas 0,5 quilos por dia. Em 2020, o valor passou para 1,4 quilos”. No capítulo da reciclagem ouvimos um refrão tantas vezes repetido: a meta de Bruxelas para 2025 exige que se recicle 55% dos resíduos. Portugal está nos 13%. Somos avisados que temos de reduzir consumos. De água, de roupa, de carne, de tudo um pouco. Temos de mudar, fazer mais e melhor.

A poucas semanas da segunda grande conferência dos Oceanos, que se realiza este mês em Lisboa, já sentimos o cheiro do mar. Ficámos, por exemplo, a conhecer o novo projecto da Fundação Calouste Gulbenkian centrado no “carbono azul”, que é capturado nos oceanos e em ecossistemas costeiros que importa identificar, proteger e restaurar.

Nas próximas semanas, o mar vai entrar mais ainda pelos nossos olhos adentro. E depois de uma primeira conferência em 2017 que serviu para identificar os principais problemas importa agora falar de soluções. É isso que esperamos. É isso que Peter Thomson, o enviado especial do Secretário-Geral da ONU, espera. “A dinâmica para uma mudança positiva está a crescer em todo o mundo, com pessoas, especialmente jovens, mobilizadas para fazer a sua parte para inverter o declínio da saúde dos oceanos”, refere numa entrevista no site da ONU. Apesar de termos ficado aquém de ter 10% do oceano coberto em Áreas Marinhas Protegidas em 2020 (em 2022 tínhamos 8%), Thomson acredita que a proposta apoiada por 84 países que quer ter 30 por cento do planeta protegido até 2030, o que inclui, naturalmente, partes do oceano, “é exequível”.

Como? “Existem 1000 soluções, e uma frota delas será lançada na conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, em Lisboa”, avisa. Um exemplo inspirador: “A maior fonte de alimento do mundo está realmente inexplorada por qualquer outra pessoa que não as baleias, o fitoplâncton. Vamos comer algum tipo de tofu marinho que é feito a partir do fitoplâncton. Seremos agricultores do mar em vez de caçadores-recolectores, que é o que ainda somos”.

Os dados importam. Todos os dados importam. O diagnóstico é o primeiro passo de uma terapia eficaz e é com dados sólidos e fiáveis que se constroem as melhores soluções. Podemos gritá-los ou falar baixinho. Ou, às vezes, nem sequer temos de dizer nada. Só temos de mostrar o que é importante para nós.

Foi isso que aconteceu nos últimos dias com o desafio lançado aos leitores pelo Azul e que nos encheu de esperança. Pedimos que em tempo de jacarandás em flor nos mandassem imagens antes que eles se despeçam de nós e a cor arroxeada seja varrida das paisagens.

Chegaram imagens de todo o país. Continuam a chegar hoje, vários dias após o apelo. E essas imagens dizem-nos que estas pessoas se importam. São já quase 200 fotografias que valem por um bom punhado de gritos e outro tanto de tentativas de “persuasão gentil”. Dizem-nos que as pessoas estão atentas ao que se passa à sua volta, à natureza, e que isso é importante. Sem dizer uma única palavra, o grito do jacarandá não atrapalha, dá-nos ânimo.

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