Na morte do jornalista Mário Mesquita, meu (e de tantos, tantos) professor da Faculdade

Na altura em que foi meu professor, o Mário Mesquita tinha pouco mais de 30 anos e era já uma lenda do jornalismo. Tinha sido director do DN aos 28 anos, demitiu-se depois de um conflito com Mário Soares e a direcção do PS de que era fundador.

A última vez que vi Mário Mesquita foi em Dezembro, no velório do Horácio do Vale César. Estávamos os dois a olhar o caixão coberto pela bandeira portuguesa e a falar de idades. Mário e Horácio, micaelenses, tinham sido colegas no liceu de Ponta Delgada, e tinham aquele fino humor dos açorianos, misturado com uma timidez insular e uma notável sofisticação intelectual. Agora, depois da notícia da brutal e inesperada partida de Mário Mesquita, imagino-os no céu a fazerem o mesmo a que se dedicavam em miúdos no liceu de Ponta Delgada: a discutirem um com o outro os livros que tinham lido. Acho que o Horácio me disse um dia que o Mário estava sempre à frente (e devia ser difícil ultrapassar o Horácio).

Mário Mesquita foi meu professor na Faculdade, como de tantos jornalistas da minha geração e das que vieram a seguir. Foi com ele que fiz as cadeiras “Géneros Jornalísticos” e “Ideologia e Comunicação Social”. Ensinou-me a fazer títulos de jornal e obrigou-me a passar uma época Outono-Inverno metida na Hemeroteca a consultar os jornais publicados durante o PREC. Aprendi muito com isso – e com ele.

Na altura, Mário Mesquita era já uma lenda do jornalismo. Tinha sido director do Diário de Notícias aos 28 anos e, acontecimento notável, entrara em conflito com Mário Soares – o líder do PS, do qual Mário Mesquita também tinha sido fundador – e demitiu-se. Tinha, na altura em que foi meu professor, pouco mais de 30 anos, e a mesma cara de hoje. É verdade que na época, anos 80, ninguém se atrevia a chamar jovem a alguém com mais de 30 anos. Hoje é quase ridículo ver trintões a serem tratados com paternalismo pelos mais velhos e ver como alguns deles têm a vaga sensação de que ainda não chegaram à idade adulta.

Mário Mesquita teve uma carreira jornalística intensa e ainda voltou nos anos 80 para renovar o extinto Diário de Lisboa, mas por pouco tempo. Mais tarde, tornar-se-ia, no jornalismo, apenas comentador: foi colunista semanal do PÚBLICO durante muitos anos, a convite do Vicente Jorge Silva.

Na verdade, foi mais professor do que jornalista. Na entrevista que lhe fiz em Agosto passado, na altura do lançamento do livro A Liberdade por Princípio – Estudos e testemunhos em homenagem a Mário Mesquita, disse-me, com aquele seu humor desconcertante, “fazendo as contas, fui mais anos professor do que fui jornalista. Mas as pessoas quando se referem a mim dizem ‘o jornalista Mário Mesquita. Presumo que no meu necrológico também sairá ‘o jornalista Mário Mesquita’”.

Foi o único professor da Faculdade que nunca perdi de vista – almoçávamos a espaços, falávamos das grandes e minúsculas questões. Ele parecia que continuava a saber de toda a gente da turma ou, pelo menos, de grande parte. Era muitíssimo divertido – coisa que nunca me passou pela cabeça durante as aulas na Nova que pudesse ser, quando o homem de 30 e poucos anos revelava aos alunos uma timidez e uma distância consideráveis. Mais tarde, percebi que era uma marca de água de muitos dos açorianos que vim a conhecer depois, principalmente dos nascidos em São Miguel. São pessoas diferentes de todas as outras, até de açorianos de outras ilhas, extraordinariamente sábios e peixes de águas profundas, como Mário Soares chamava a Jaime Gama, outro contemporâneo do liceu de Ponta Delgada, grande companheiro e influência política de Mário Mesquita.

Mário Mesquita tem um livro cujo título é, em si, uma lição de jornalismo: O Estranho Dever do Cepticismo. É uma frase fundadora da nossa profissão, um “estranho dever” que os poderes públicos detestam, mas a única maneira de exercer o jornalismo em consciência. O resto, já dizia não sei quem que costuma ser erradamente citado, é publicidade.

Mário, agora que tínhamos descoberto um sítio novo para almoçar, já não vai acontecer. (Mário Mesquita insistia comigo para lhe chamar “Mário”, mas eu não conseguia passar de “professor”, ou intercalar “Mário” com “professor”. Agora saiu Mário).

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