Uma forma sombria de liberdade

Uma autora só muito aparentemente “fora do mundo”, apenas com “existência literária”, Madalena de Castro Campos traz para a prosa a mesma incisão implacável talhada nos seus versos, e o “mundo” como aresta a desafiar. Escrita implacável, sem concessões a tutelas, assuntos-tabu, processos ou modelos.

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Começa por ser problemático enquadrar este livro. E terminará assim a sua leitura. Porque ele nada faz para facilitar a vida ao leitor, no sentido de se tornar mais definido, enquanto romance (?), autobiografia (?), ou reflexão (?) em torno de qualquer possibilidade. Como sucede na poesia que Madalena de Castro Campos publicou antes de Condition Report (O Fardo do Homem Branco, La Mariée Mise à Nu, A Gun in the Garland, Companhia das Ilhas, 2013, 2017, 2019), há um imperioso e provocante jogo gramatical e retórico cujos processos originam um conjunto estimulante de confrontações e antinomias. Seria possível conceber uma autobiografia na terceira pessoa? Ou uma poesia intensamente autocentrada, mas à qual se extraísse por completo qualquer rasto de “sentimentalidade” e se deixasse repassar pela presença constante do pronome pessoal “ela” (e formas verbais que o pressuponham)? É o que fez MCC em verso e o que realizou na prosa acutilante de Condition Report. Ficção, (auto)biografia reconvertida, meditação? Refractária às imposições de quaisquer gavetas da taxinomia, esta escrita não oferece conclusões definitivas à demanda por um género literário.

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