Cinzas londrinas

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Daniel Boczarski/Redferns via Getty Images

A lembrança só recupera fragmentos: se a proposição é comezinha, a experiência permanece surpreendente e misteriosa. Tenho a certeza que vi, na televisão, muitos episódios da série anime Conan de Hayao Miyazaki e sou capaz de dizer os nomes das personagens, mas é o genérico, com palavras em japonês, que ressoa, que se reflecte. Lembro-me da música, das imagens submarinas, do rapaz a saltitar no prado e, hoje talvez mais do que ontem, das imagens com que abria: naves ameaçadoras num céu negro e laranja, explosões gigantescas, ruínas. Uma voz dizia-me que, pelas mãos dos homens, o Apocalipse tinha destruído — ainda que não para sempre — o planeta. Era assim que nas manhãs de sábado, nos anos 80, me acordavam: com o anúncio de uma ameaça eminente e imprevisível. O rapaz do futuro, esse, só chegaria depois. Mas falava de fragmentos. Também me vêm à memória certas vinhetas que encontrava nas revistinhas Marvel. Desenhadas por Frank Miller, Sal Buscema, Jack Kirby, entre outros, exprimiam a dor ou sofrimento dos poderosos super-heróis. Vi o Demolidor a chorar a morte do pai, Peter Parker dobrado sobre o peso da culpa (não conseguia ser bom neto para a avó viúva) Hulk desesperado depois não ter resistido à cólera. Certamente que terei visto outra coisas, mas estas (e semelhantes) são as que primeiro aparecem: os rostos de personagens que, tendo super-poderes, padecem dos males dos humanos. Não me passa pela cabeça fazer comparações com grandes mestres da arte, mas o desenho, quando ao serviço da BD, pode ser mais do que a BD, não pode? E ali, naqueles quadradinhos solitários, permitam-me dizer: foi.

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