Música Bem Temperada na Escola

Como é possível encontramos hoje, quer no ensino universitário, quer no ensino politécnico, professores de didática (seja a área que for) que nunca realizaram uma espécie de estágio de imersão junto de uma escola com crianças bem pequenas?

Foi divulgado o importante estudo da plataforma Edulog, muito bem redigido, sob a coordenação da Professora Carlinda Leite e que aponta algumas preocupações que merecem, da minha parte, um pequeno contributo dentro da minha área específica - a didática da música.

Entre diversos resultados e consequentes preocupações, o estudo aponta para professores do Ensino Superior muito focados nas questões mais teóricas e pouco debruçadas na componente prática.

Contudo, estas conclusões não me parecem propriamente inauditas. Há mais de duas décadas que venho escutando, enquanto formador, educadoras de infância e professores do 1.º ciclo - em contexto de formação contínua de música, sobre a componente de didática da música que obtiveram na sua formação inicial. Esta escuta fez crescer em mim uma preocupação. O (des) gosto que muito destes profissionais, que intervêm em faixas etárias tão importantes e sensíveis, viriam a ter pela música e a sua partilha junto das crianças, depois de experiências dececionantes com professores do ensino superior, especialistas na área da música.

Tal como o estudo aponta, encontramos no ensino superior, e mais preocupante, no hemisfério politécnico, professores de didática da música sustentados na sua teoria, e, praticamente, sem colocar os pés no terreno, leia-se, num jardim-de-infância ou uma escola do 1.º ciclo.

Estes professores são, geralmente, alunos brilhantes na sua formação inicial, mas vemo-los tão afastados daquela realidade, daquele espaço, do dizer das crianças, das observações que se devem fazer delas, que se lhes escapa o essencial.

Citando Mário Azevedo, penso que deveria haver uma escola de elite de professores da formação inicial de professores. Precisamos de um grupo grande de pessoas experimentadas.

Diria mais, pré-requisitos para todos os professores, incluindo os professores do Ensino Superior. Aqui, encontramos colegas com muita competência que, pura e simplesmente, não conseguem dar conta que tem um mar de gente à sua volta. Encontro, no ensino superior, gente que está muito colada ao seu habitus. E o seu habitus é investigar de uma forma muito singular e muito colada à sua linha de investigação. E fica às vezes a sensação de que o mundo fica debaixo daquela linha.

Conhecemos a sua excelência técnico-científica, mas desconhecemos, às vezes, a sua prática pedagógica junto do terreno, junto da criança e seus pares, junto dos seus tempos e espaços.

E esta volátil miopia pedagógica é transportada para os alunos pré-educadores de crianças. De crianças. O erro viciante cedo se torna regra e recebemos, posteriormente nas escolas, profissionais cientificamente capazes, mas, por vezes, sem uma prática pedagógica significante. Como é possível encontramos hoje, quer no ensino universitário, quer no ensino politécnico, professores de didática (seja a área que for) que nunca realizaram uma espécie de estágio de imersão junto de uma escola com crianças bem pequenas? Tenho convivido, ao longo dos anos, com professores pedagogicamente muito valiosos que amam a sua profissão, trabalhando junto das crianças. Por que não estarmos um pouco mais atentos a esses profissionais que carregam consigo, saberes e segredos profissionais não adquiridos na vida académica? Por que não consultá-los e perguntar-lhes sobre o conhecimento “não oficial” que também trabalham junto do seu espaço? Por que não partilhar este valioso conhecimento na formação inicial de educadores?

Exploro há 30 anos a música com crianças desde os seis meses ao mestrado. Há quase nove anos, tive o prazer de defender a minha tese de doutoramento “Música Bem Temperada na Escola - Narrativas de Vida na Construção da Profissionalidade de Um Educador Musical” (FPCE-UP). Este foi o ponto de partida.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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