Um grupo de jovens europeus quis “começar uma conversa” sobre uma torre abandonada à beira-Douro

Durante dez dias de Abril, o Laboratório Edgar Cardoso, em Vila Nova de Gaia, foi a casa de estudantes da Universidade de Linz, na Áustria, e das faculdades de Belas Artes e de Arquitectura do Porto. O objectivo foi explorar o potencial do edifício que nasceu para ajudar a construir a Ponte São João, mas que, actualmente, está praticamente abandonado.

NEG - 26 abril 2022 - reportagem no Laboratório Edgar Cardoso, em Gaia, ocupado por estudantes de vários países
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NEG - 26 abril 2022 - reportagem no Laboratório Edgar Cardoso, em Gaia, ocupado por estudantes de vários países Nelson Garrido,Nelson Garrido
NEG - 26 abril 2022 - reportagem no Laboratório Edgar Cardoso, em Gaia, ocupado por estudantes de vários países
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Laboratório Edgar Cardoso, em Gaia, ocupado por estudantes de vários países Nelson Garrido
NEG nelson garrido - 26 Abril 2022 - PORTUGAL, Vila Nova de Gaia - reportagem no Laboratorio Engenheiro Edgar Cardoso, ocupado por estudantes de varios paises
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NEG nelson garrido - 26 Abril 2022 - PORTUGAL, Vila Nova de Gaia - reportagem no Laboratorio Engenheiro Edgar Cardoso, ocupado por estudantes de varios paises Nelson Garrido

No bairro de Quebrantões, um recanto de Vila Nova de Gaia sob a Ponte de São João, a torre do antigo Laboratório Edgar Cardoso esconde-se do olhar de muitos, atrás da vegetação. Porque não faltam possibilidades para a recuperar, estudantes da Universidade de Artes de Linz, na Áustria, e das faculdades da Universidade do Porto de Belas Artes e de Arquitectura juntaram-se numa residência artística para explorar opções, numa iniciativa baptizada Laboratorre.

A torre e o espaço circundante, actualmente vedado, funcionam como um ponto de passagem e local estacionamento, acolhendo, temporariamente, a Federação Portuguesa de Canoagem. Durante a década de 1980, a torre nasceu para apoiar a construção da ponte, caindo em desuso depois da inauguração da mesma. Mas durante dez dias, entre 18 e 27 de Abril, no âmbito do projecto Paredes-Meias, 31 jovens de toda a Europa fizeram do edifício de betão uma casa provisória para 20 obras e performances. Durante a ocupação, exploraram os arredores e conheceram a população local com um objectivo claro: mostrar que aquele espaço existe, que pode ser recuperado e utilizado para diversos fins.

Nelson Garrido
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Atravessando os portões ferrugentos, vêem-se jovens atarefados de um lado para o outro, embrenhados em diferentes projectos. Numa sala envidraçada na entrada, rodeada de madeiras, metais, azulejos e aparelhos, Nikita Narder, italiana e aluna da Universidade de Linz, fez um monóculo a partir de restos de metal. Diz que a arte é “um veículo para juntar as pessoas” e, por isso, não importa fazer algo funcional, mas sim “começar uma conversa”. “A ideia é fazer as pessoas olharem para algo que geralmente não vêem”, resume. No final da intervenção, as peças foram dispostas em pontos estratégicos, apontados para o edifício.

Apesar de estar, pela primeira vez, em Portugal, Nikita confessa ter-se apercebido da existência de “imensos edifícios abandonados”. “Há uma grande comunidade com pessoas diferentes e idades variadas. E acho que se podem reutilizar os espaços desta forma – para estudantes, para a arte, para unir as pessoas.”

Ao lado de Nikita, um grupo de estudantes da Universidade de Linz dedicou-se a construir pequenos bancos que serão, depois, incluídos no passeio pedonal junto ao Douro. Pedro Cavaco Leitão, arquitecto português e um dos líderes da oficina, contou ao P3 que a ideia surgiu por faltar “mobiliário urbano”, ou pontos de descanso, neste segmento do passeio. Com restos de madeira, um dos alunos construiu um banco móvel e os restantes também puseram mãos à obra: recolheram restos de azulejos que encontraram na rua e, inspirados pelas formas do edifício, produziram mais peças para instalar pela zona.

Os alunos da universidade austríaca construíram bancos a partir de madeira, cimento e azulejos. Nelson Garrido
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As estudantes portuentes de Belas Artes e de Arquitectura construíram uma pequena horta móvel, a partir de madeira. Nelson Garrido
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No terraço do edifício, Margarita Ivanova, natural da Letónia e também aluna da universidade austríaca, em conjunto com outras artistas, optou por imortalizar o bairro no papel. “Estamos a fazer postais desta área e do Porto. Vamos imprimi-los e dá-los a quem vier ao dia aberto [27 de Abril, o último da intervenção].” Com o P3, partilha que olha a torre como “algo espectacular”: “Vemos o pôr-do-sol, a vida que passa ao pé do rio, que acontece do outro lado. Tem uma vista bonita e é agradável estar aqui”. O espaço, acredita, podia “tornar-se uma espécie de ponto de encontro para os locais, tanto para jovens como para idosos”.

Os postais são interpretações dos dias na torre e retratos do bairro de Quebrantões.
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Na torre, Dan Roth e Lina Staudinger, artistas de Berlim actualmente a estagiar na ConstructLab, corriam escada acima e escada abaixo, fazendo flutuar tecidos pelo ar. O trabalho final destes jovens consiste numa performance sobre perspectiva, que homenageia os dias que viveram durante a residência. “Nós estivemos a viver na torre”, diz Dan, de onde viam toda a gente “a mexer". Lina completa: “Vemos as pessoas cozinhar, a caminhar, ligadas umas às outras — como se estivessem a dançar. E é uma coisa muito clara quando se olha de cima.” Inspirados pela experiência, mobilizaram o grupo para uma coreografia que reproduz a dança do dia-a-dia e brinca com os pontos de vista.

Lina e Dan basearam o seu projecto na ideia de movimento e pontos de vista. Nelson Garrido
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Mas a ideia não estava completa. “A torre é um símbolo deste lugar. Quando se vive lá, toda a gente consegue ver o símbolo, mas ninguém nos consegue ver”, diz Dan. Assim, para garantir que seriam vistos, lançaram tecidos pelas varandas, para ligar entre andares e perspectivas. “Também [decidimos usar tecidos] pelo contraste com o betão. É um edifício muito rígido, um bloco grande. E depois temos o tecido superfluido que dança entre as torres”, explica Lina. E porque a experiência no edifício lhes lembrou a história da Rapunzel, chamaram à sua obra Cabelo.

Reaproveitar estruturas já existentes

O projecto chegou a Vila Nova de Gaia pela ConstructLab, uma rede internacional de artistas e profissionais de diversas áreas que já interveio um pouco por toda a Europa. A motivação desta rede é o uso temporário de estruturas que carecem de recuperação. Assim, para o Laboratorre foi apenas necessário construir uma cozinha, já que o edifício tem casas de banho funcionais e espaços para dormitório. Todas as estruturas montadas para acolher os estudantes são temporárias, móveis e minimalistas.

Os jovens coordenam-se entre si para gerir as refeições e as limpezas. Nelson Garrido
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O workshop assinalou a ignição de um programa de três anos destinado à reabilitação do edifício, com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. No entanto, ainda não há planos certos. Patrick Hubmann, artista austríaco especializado em design social e um dos líderes das oficinas, diz querer “criar um centro cultural imaterial” através da mobilização da comunidade. “Não é preciso construir novos lugares para cultura”, conclui. Como tal, se a sua visão ganhar vida, a torre poderá vir a ser, um dia, um espaço com oficinas e salas de convívio de apoio à vida cultural local. E espera, acima de tudo, que sirva para reavivar uma zona um pouco “esquecida”.

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Patrick Hubmann, junto a um dos 20 projectos produzidos durante a residência artística. Nelson Garrido

A vereadora da Cultura de Vila Nova de Gaia, Paula Carvalhal, garante ao P3 que a ideia não é “desperdiçar nem deitar abaixo o edifício”. A melhor forma de o aproveitar é “dá-lo a usufruir às pessoas, e aos jovens em particular”, uma questão que tem vindo a ser debatida nos últimos anos. Mas nada vai ficar decidido para já; nos próximos tempos, serão debatidas as soluções e as reformas que podem ser feitas para definir o destino da torre.

Texto editado por Ana Maria Henriques

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