Morreu Marcus Leatherdale, fotógrafo da cena artística nova-iorquina dos anos 80

Retratou a Nova Iorque do final dos anos 70 e da década de 80, tendo privado com Andy Warhol, Robert Mapplethorpe ou Madonna, e viveu entre viagens, com Lisboa e a Índia como paragens obrigatórias. Tinha 69 anos.

Foto
Marcus Leatherdale Iannis Delatolas

Morreu na sexta-feira o fotógrafo canadiano Marcus Leatherdale, que ficou conhecido pelos seus retratos de artistas, celebridades e boémios da baixa nova-iorquina do final dos anos 70 e da década de 80, de Andy Warhol a Madonna, e por ter documentado, a partir de dentro, entre amigos, a vibração da cidade. Era um viajante e Lisboa, onde viveu, uma das suas escalas habituais. Tinha 69 anos.

Ao longo da sua carreira, foi alvo de muitas exposições em galerias, inclusive em Portugal, mas também em importantes instituições museológicas como o MoMa de Nova Iorque, o Art Institute of Chicago ou o Albertina Museum de Viena. Antes de descobrir a sua identidade artística, no final dos anos 70, foi companheiro, colaborador e modelo do fotógrafo Robert Mapplethorpe, com quem dizia ter aprendido muito. Os seus retratos a preto-e-branco, de figuras como os artistas Andy Warhol e Keith Haring, as cantoras Debbie Harry, Lydia Lunch ou Madonna, então ainda uma desconhecida, a actriz Jodie Foster, a coreógrafa Trisha Brown, a drag-queen Divine ou a supermodelo Iman, deram-lhe visibilidade, tendo publicado em inúmeras revistas, da New Yorker à Vanity Fair.

Foto
Andy Warhol por Marcus Leatherdale

E, claro, a Interview, de Andy Warhol. Em 2009, a Vanessa Rato, no PÚBLICO, descrevia assim o início do seu percurso: “Deixei Montreal quando tinha 20 anos. Estudei na Califórnia e cheguei a Nova Iorque em finais dos anos 1970 basicamente para ser um adulto profissional. Via-me como um artista a usar a fotografia como suporte. Decidi fazer qualquer coisa mais comercial, para revistas, porque não sabia como sobreviver. Foi assim que cheguei à Interview e conheci o Warhol.”

Mas Marcus Leatherdale não fotografou apenas figuras que eram conhecidas ou viriam a sê-lo. Também lhe interessou o ambiente vibrante da cidade, tendo captado a atmosfera mundana de Nova Iorque a partir do final dos anos 70. E se a boémia artística nova-iorquina desses anos foi um dos contextos em que mais se empenhou, viria igualmente a passar 20 anos a fotografar periodicamente na Índia, onde viveu espaçadamente desde os anos 1990, quando deixou os Estados Unidos, tendo lançado livros que davam conta desse ímpeto, como Adivasi: Portraits of Tribal India (2010), paralelamente ao seu envolvimento em projectos de cariz humanitário.

Foto
Madonna por Marcus Leatherdale

No final da década de 2000, e numa altura em que residia em Lisboa e lançara há pouco tempo o livro de retratos Hidden Identities (2009), falámos com ele a propósito de Andy Warhol, que figurava na capa da obra, e confessava: “Na Índia fotografo um mundo que se vai extinguir, por causa da modernização. Em Nova Iorque, sem o perceber, também fotografei um mundo em extinção”, afirmava, numa alusão às mortes provocadas pela sida e também à gentrificação que a cidade conheceu a partir do final dos anos 80. “Para algumas pessoas, parece que a única coisa que fazíamos era andar pelos clubes, como o Studio 54. Saíamos, mas durante o dia criávamos muito”, dizia. “Existia um elemento criativo que ligava as pessoas e isso foi muito excitante.”

Na mesma conversa, recordava que, na festa do seu 30.º aniversário, havia juntado Andy Warhol e Madonna, e dizia: “Ela era incrivelmente tímida. Ninguém a conhecia, ainda não se tinha lançado, mas percebia-se que iria ser grande, embora não imaginasse que iria ser tão grande. Lembro-me de alguém perguntar: ‘quem é ela?’ E de eu responder, ao pé do Andy, que ela iria ser grande, e de ele mostrar curiosidade. Naquela altura, ela sentia-se intimidada com aquela gente toda.”

Foto
Debbie Harry por Marcus Leatherdale

A causa da morte do fotógrafo não foi comunicada, embora se saiba que passava por tempos difíceis, depois da morte, durante a pandemia, do seu companheiro de muitos anos, o editor de moda português Jorge Serio, e da mãe. Na última sexta-feira, na sua página da rede social Facebook, havia deixado uma derradeira frase do escritor Albert Camus: “What is called a reason for living is also an excellent reason for dying.”

Sugerir correcção
Comentar