O Que Querem os Cães? Mat Ward responde num livro com tudo para sermos “bons donos”

Escrito pelo especialista em comportamento animal Mat Ward e com ilustrações de Rupert Fawcet, O Que Querem os Cães procura responder a todas as perguntas e dúvidas que os donos têm sobre os seus amigos de quatro patas. Primeiro passo: “Pôr de lado esta ideia de que os cães estão a tentar subir na hierarquia de liderança e dominar-nos.”

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Mat Ward SIMON O'CONNOR/STUFF

Mat Ward é um dos mais respeitados especialistas em comportamento animal do Reino Unido. Em 2021, condensou 25 anos de profissão no seu primeiro livro, O Que Querem os Cães, que agora chega a Portugal editado pela Lua de Papel. Nele, o escocês, defensor acérrimo do treino baseado em recompensas, dá conselhos centrados na interacção positiva entre o ser humano e o animal de estimação, num livro “que tem algo para toda a gente”, desde donos novatos a experientes. O autor, formado em Psicologia e Zoologia, falou com o P3 sobre como foi escrever este livro, que, entre ilustrações de Rupert Fawcet, procura responder à pergunta que todos os amantes de cães querem saber – mas, afinal, o que querem os cães?

Porque decidiu escrever este livro?
Há tanta informação sobre o comportamento e treino de cães. Toda a gente tem uma opinião, quer seja uma senhora com quem nos cruzamos num passeio ou o nosso tio, e eu descobri que muitos dos meus clientes ficam um pouco confusos com toda essa informação. Separar a boa da má informação pode ser um pequeno desafio, por isso quis escrever um livro que fosse divertido e acessível, fácil de ler, mas que fornecesse aos guardiões de cães toda a informação importante que precisam de saber para serem bons donos. É um livro que se pode pegar, ler uma página ou duas ou ler todo de uma vez, e penso que tem algo para toda a gente, desde para pessoas que nunca tiveram cães a pessoas experientes.

No seu livro desmistifica muitos mitos sobre cães (como a ideia de que se deve acrescentar sete anos caninos por cada ano humano para calcular a idade do animal). Quais gostaria que as pessoas soubessem que são falsos?
Para mim, um dos mais prejudiciais é o mito do domínio, segundo o qual os cães são animais de matilha e, por isso, esforçam-se para se tornarem líderes ou donos de um estatuto superior. Penso que essa ideia, em primeiro lugar, muitas vezes não é precisa ou é simplista, e pode ser realmente prejudicial. Quando as pessoas interpretam comportamentos indesejados, particularmente agressão, como um cão a tentar alcançar o domínio, muitas vezes isto cega-as para o problema real e não o resolvem. Por exemplo, um cão pode, na realidade, estar assustado e sentir-se ameaçado e é por isso que é agressivo. Assim, se um cão é agressivo em relação a outros cães, em vez de tentar dominá-lo, o ideal é tentar dar-lhe algum espaço ou controlar a situação.

Este mito cega as pessoas ao que realmente se está a passar e também pode fazer com que, muitas vezes, as pessoas tomem medidas inúteis como “se eu comer antes do meu cão, ele saberá que eu sou o chefe”. Há medidas disparatadas como essa, que não fazem diferença, mas depois há também atitudes que podem ser prejudiciais, como “o meu cão está a tentar dominar-me, por isso preciso de ripostar e prendê-lo ou ser mais firme com ele”. Isso pode piorar o problema e comprometer as relações das pessoas com os seus cães. Muitas vezes, no meu trabalho, tenho de resolver problemas causados por pessoas que estão a tentar fazer a coisa certa, ao lidar com um cão dominante, mas que não conseguem interpretar os sinais de forma correcta. Para mim, como "behaviorista”, que trabalha diariamente com comportamentos indesejados, o mito do domínio é provavelmente o pior.

É como diz no seu livro: muitas vezes o cão não compreende porque é que estamos a fazer o que estamos a fazer. É confuso para ele compreender esta dinâmica de poder? Absolutamente. Portanto, se um cão tem medo, por exemplo, que lhe cortem o pelo ou que lhe escovem a cauda e ele rosna e mostra os dentes, é evidente que o faz porque está stressado — como nós, se algo acontece, ficamos stressados e na defensiva e podemos ficar um pouco em pânico. Mas muitas pessoas podem interpretar esse tipo de comportamento do cão como “está a tentar ser mandão” ou “é teimoso” ou “está a tentar dominar-me” quando na realidade ele está apenas nervoso e stressado com a situação e está a tentar lidar com ela de uma forma que surge naturalmente. Portanto, pôr de lado esta ideia de que os cães estão a tentar subir na hierarquia de liderança e dominar-nos é realmente importante e pode ajudar os donos a compreender melhor os seus cães, treiná-los melhor e ter uma melhor relação com eles.

Há certas precauções que normalmente não são do conhecimento geral quando se trata de cuidar de um cão (como escovar os dentes). Quais gostava que tivessem mais destaque?
Penso que provavelmente a questão número um, em termos de saúde, é o peso de um cão. Eu não sou veterinário, mas os meus colegas veterinários tendem a mostrar preocupação em relação a isso. Por vezes, temos a percepção de que o cão tem um bom peso quando na realidade tem excesso de peso, o que lhe pode trazer todo o tipo de problemas de saúde. Trabalhar com os veterinários para estabelecer qual é peso ideal e mantê-lo é importante.

No livro fala em estabelecer uma relação positiva entre o veterinário e o seu cão. Sente que, desta forma, o cão vai deixar de associar a ida ao veterinário a uma situação má?
Sem dúvida. Penso que o mais difícil para os veterinários e para os nossos cães é muitas vezes o facto de eles precisarem de lá ir quando estão indispostos ou com dores ou feridos e, por isso, as visitas à clínica veterinária podem ter uma reputação um pouco negativa. Assim que o cão entra na sala de consulta da clínica ou o veterinário aparece no seu uniforme, o cão começa a preocupar-se com o que pode acontecer. A melhor maneira de reduzir esse risco é tentar desenvolver associações positivas com o veterinário. Tentar, quando possível, aparecer na clínica veterinária, passar lá cinco minutos, receber alguns biscoitos da recepcionista e da enfermeira, ir a uma sala de consultas vazia e espalhar alguns biscoitos para que o cão os possa encontrar e depois ir embora. Se as pessoas puderem incorporar isso na vida dos seus cães, podem fazer uma enorme diferença.

Que dicas daria a alguém que nunca teve um cão e quer dar esse passo?
A dica número um seria, em vez de lidar com comportamentos indesejados quando estes ocorrem e tentar pará-los, tentar descobrir que comportamento gostaríamos que o nosso cão tivesse e tentar fazer com que ele tenha sucesso quando o faz. Assim, em vez de tentar travar reactivamente um comportamento, devemos esforçarmo-nos para tentar ensinar proactivamente os nossos cães a serem bem-sucedidos nesta sociedade humana.

Um exemplo bastante comum é a saudação. Muitos cães, desde muito novos, aprendem que saltar para cima das pessoas lhes dá um pouco de amor ou pelo menos alguma atenção. Por isso, a partir de uma tenra idade, podemos dar aos nossos cachorrinhos todo o amor do mundo, muita e muita atenção, mas haver uma regra básica de que, para isso, eles têm de ter as quatro patas no chão. Se saltarem não têm de ser repreendidos, mas não podem ser tocados e não podemos falar com eles. Muito rapidamente o cão vai aprender o que funciona e pode aprender que saltar para cima das pessoas e ladrar-lhes vai chamar a atenção, mas também pode aprender que um comportamento educado e silencioso também chama a atenção. Desta forma, com um pouco mais de iniciativa e esforço para descobrir o que nós queremos, podemos ajudar o nosso cão a ter sucesso quando se comporta de formas desejáveis.

Ilustrações do livro O Que Querem os Cães Rupert Fawcet
Ilustrações do livro O Que Querem os Cães Rupert Fawcet
Ilustrações do livro O Que Querem os Cães Rupert Fawcet
Ilustrações do livro O Que Querem os Cães Rupert Fawcet
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Rupert Fawcet

As ilustrações do seu livro foram feitas por Rupert Fawcett. Trabalhou com ele de perto?
Não trabalhámos no mesmo espaço, mas, essencialmente, fizemos uma colaboração, o que foi bastante interessante para mim, porque pude ver a forma como ele trabalha. Eu escrevia o livro e depois fazia sugestões sobre que tipo de ilustrações poderia funcionar. Cabia sempre ao Robert usar a sua criatividade para inventar. Mas, basicamente, eu escrevia cerca de 20 páginas e, em cada uma delas, deixava sugestões para as ilustrações e, passado uma semana, o Rupert dava-me o feedback e o resultado.

Sente que estas ilustrações são uma parte essencial do livro? Se sim, de que forma?
Como já disse, eu queria algo que fosse divertido e acessível. Não queria que fosse apenas página após página de informação. Depois de trabalhar com os meus clientes e os seus cães durante 25 anos, aprendi que as pessoas assimilam melhor a informação em pequenas quantidades, em vez de os bombardear com informação. De certa forma, eu queria que o livro fosse assim e, por isso, penso que as ilustrações e a forma como a informação está organizada fazem com que uma pessoa tenha acesso a todos os pontos importantes de uma forma divertida.

Tem os seus próprios cães. Como é que eles o ajudaram no seu trabalho?
Enroscaram-se e mantiveram-me quente enquanto o escrevia e, só por isso, já ajudaram (risos). Uma pessoa aprende sempre muito com os seus próprios cães porque vive com eles, dia após dia. Obviamente, também aprendi muito com cães que treinei pessoalmente e com os seus donos ao longo dos anos, mas aprendi muito com os meus, a Pepper, que tem agora 12 anos, o que para mim é inacreditável, e a Zuki, que é filha da Pepper e tem oito anos.

Elas são bem-comportadas?
Elas portam-se bastante bem, não me posso queixar (risos). Preciso de ter um pouco de cuidado com a Pepper às vezes, porque quando ela está na floresta gosta de perseguir veados. É a sua kryptonite, não consegue resistir-lhes, por isso temos de lidar com isso.

Texto editado por Amanda Ribeiro

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