Bem-estar: que dimensões nos devem preocupar?

Enquanto sociedades focadas nos valores do individualismo e do sucesso eminentemente pessoal, tendemos a associar o bem-estar, no essencial, a uma perspectiva psicológica ou subjectiva.

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Artem Kovalev/Unsplash

Hoje, 7 de Abril, assinalamos o Dia Mundial da Saúde. É um momento de comemoração em que a procura do equilíbrio biopsicossocial da nossa espécie deve ser realçada, numa tentativa de conjugar os desenvolvimentos individuais e colectivos. Neste sentido, saúde e bem-estar tornam-se conceitos inseparáveis, reforçados mutuamente.

No entanto, enquanto sociedades focadas nos valores do individualismo e do sucesso eminentemente pessoal, tendemos a associar o bem-estar, no essencial, a uma perspectiva psicológica ou subjectiva. Esta definição remete para os elementos do afecto, das emoções, da auto-estima ou de uma autonomia para a acção. Tudo factores que merecem a nossa valorização; porém, alcançar uma saúde sustentável e duradoura implica alargarmos o conjunto das suas causas de modo a obtermos, em simultâneo, uma compreensão mais completa e operacional do bem-estar.

Por um lado, necessitamos de um bem-estar socio-económico a partir do qual a satisfação laboral e a segurança financeira sejam as bases para uma realização pessoal e uma autonomia de acesso a dinheiro, bens e serviços. Num contexto global em que trocas comerciais são profusas, seria incauto ignorar o poderio económico enquanto condição para uma acção mais livre. Esta liberdade convoca também o bem-estar político, dado que participar cívica e politicamente é uma expressão dessa mesma liberdade e reforça-a, produzindo cidadanias alicerçadas em direitos e responsabilidades comunitárias.

Por outro lado, o bem-estar educativo deve também ser referido e trabalhado. Não somente na construção do conhecimento académico e científico como também na comunicação através da partilha de saberes. A educação possibilita uma inclusão familiar, amical e comunitária, reforçando códigos de leitura do mundo, pelo que bem-estar educativo é combater a opressão e promover a crítica e a igualdade.

Finalmente, não descartemos o bem-estar ambiental. Alguns movimentos sociais hodiernos exploram profundamente as possibilidades de lutar por um modelo ecológico promotor da protecção dos ecossistemas. As alterações climáticas são um grande motor de preocupação grupal, demonstrando que ter saúde é impensável sem um convívio respeitoso com os outros seres sencientes e com os elementos não vivos da Terra, assim como sem uma relação harmoniosa entre gerações.

O conceito de bem-estar é heurístico quando discutimos a temática da saúde. Mas é preciso entendê-lo de modo holístico, sem os preconceitos do costume que nos agrilhoam às nossas ambições descontextualizadas das dinâmicas sociais mais amplas. Para além disso, bem-estar é inevitavelmente sinónimo de desenvolvimento, logo, devemos desejar que este seja o mais abrangente possível. Somente assim é que as visões psicologizantes da realidade social não nos cegam perante uma complexidade de fenómenos que requerem interdisciplinaridades mais íntimas.

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