Gombrowicz, o pensador, o génio, o demonólogo cultural e muitos outros Gombrowicz ainda necessários...

Provocador, exibicionista, um “actor”, Witold Gombrowicz atingiu a sua excelência no diário que escreveu ao longo dos últimos 19 anos de vida. É lá que está a sua voz mais certeira: múltipla, ambígua, despudorada, que reflecte a complexidade do mundo e a relação tensa entre indivíduo e colectivo. “Eu existo”, diz Gombrowicz numa obra que é pela primeira vez publicada em Portugal.

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Polish Novelist Witold Gombrowicz (Photo by Sophie Bassouls/Sygma/Sygma via Getty Images) Sophie Bassouls/Sygma/Sygma via Getty Images

“Se eu ganhar o Nobel ofereço-me um Mercedes convertível”, terá dito Witold Gombrowicz ao escritor e editor francês Dominique de Roux no dia em que lhe enviou a revisão das entrevistas que pouco depois seriam publicadas num volume com o título Entretiens avec Witold Gombrowicz. Foi em Abril de 1968. Nesse ano, o irlandês Samuel Beckett, o japonês Yasunari Kawabata e, justamente, o polaco Witold Gombrowicz encabeçavam a lista de favoritos ao Nobel. Poucos meses depois, em Outubro, a Academia Sueca atribuía o prémio a Kawabata, consta que apenas com um voto a mais do que os que foram para Gombrowicz. Beckett ganharia no ano seguinte, mas Gombrowicz não viveu para saber. Morreu a 24 de Julho de 1969, aos 64 anos, em Vence, vítima de falência respiratória, finalmente consagrado depois de quase 30 anos de exílio e uma vida em conflito com o seu país ao longo da qual tentou provar a sua singularidade na literatura. Conseguiu. E mais do que nos contos, nos romances, nos ensaios, nas peças de teatro, nas críticas, fê-lo no diário que manteve entre 1953 e aquele derradeiro mês de Julho de 1969.

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