O quotidiano da violência e o apoio como ferramenta política

Ao eliminarmos reiteradamente a presença de produtos culturais e a participação de pessoas num dado espaço de influência estamos sobretudo a legitimar que outros façam exactamente o mesmo. O processo torna-se interminável e, naturalmente, saturante e inútil, porque esvaziado de sentido lógico ou crítico.

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Reuters/DADO RUVIC

A 16 de Março, a advogada Carmo Afonso escrevia, neste mesmo jornal, um dos melhores textos que aqui já tive oportunidade de ler. Para além de recorrer a uma linguagem de simples entendimento, reflectiu sobre como a violência pode minar a voz política de um/a agente e a índole democrática de uma sociedade, revelando-se como causa de uma reprodução de outras violências.

A cultura de cancelamento funciona, aliás, a partir desse espírito, caindo no erro da sua própria existência: ao eliminarmos reiteradamente a presença de produtos culturais e a participação de pessoas num dado espaço de influência estamos sobretudo a legitimar que outros façam exactamente o mesmo. O processo torna-se interminável e, naturalmente, saturante e inútil, porque esvaziado de sentido lógico ou crítico.

Contudo, a institucionalização deste modo de agir socialmente é uma prova de como a violência se reconfigurou, e a forma como lhe reagimos também. Outrora o exercício do poder manifestava-se a partir do combate físico, do sangue e da morte. As guerras eram uma espécie de quotidiano da manifestação bruta da autoridade, mas não deixavam de chocar os seres humanos que por elas eram influenciados directa ou indirectamente.

Hoje a violência sucede principalmente no meio digital, com a palavra vinda da posição do oculto a ter um papel primordial. Uma violência simbólica que se torna invisível pela forma como não nos apercebemos dela, tal é o abuso da liberdade de expressão de que dispomos em países com o desenvolvimento social e político como o de Portugal.

Mas vejamos outro exemplo desta banalização. Certamente já nos deparamos com situações de quem se zanga por eventos de valor irrisório. Um copo que sem querer caiu ao chão devido a um movimento brusco, um/a motorista que se esqueceu de abrir a porta de trás do autocarro, uma peça de roupa que se estragou na máquina de lavar sem ninguém ter tido culpa. O efeito de cólera sobe imediatamente pelas nossas vísceras, como que se as nossas ferramentas culturais não conseguissem nunca fazer face às nossas ânsias animalescas.

Esta ausência de empatia no controlo do nosso instinto arrogante é fruto das complexidades do modo de vida hodierno. A rapidez e a fluidez, como defendia o sociólogo polaco Zygmunt Bauman, são a causa de tudo ser tão efémero. A paciência não é imune à celeridade dos tempos e com frequência só nos damos conta do estilo agressivo de comunicação que estamos a empregar quando começamos a ficar isolados/as, designadamente em situações extremas de necessidade de partilha de angústias ou conquistas.

Como então dialogar com afectividade e escuta activa entre violências tecnológicas e aquelas que proliferam no face a face rotineiro? Bem, quem estuda as estratégias de intervenção e de co-construção de conhecimentos, no âmbito das ciências da educação, afirma que o apoio pode ser tanto um recurso pessoal como social, obrigando os sujeitos a reflectir sobre si mesmos, mas igualmente acerca das suas comunidades.

Apoiar outra pessoa implica uma conjunção de recursos (domínio do ter), comportamentos (domínio do fazer) e percepções (domínio do imaginar). Requer também confiança interpessoal e reciprocidade entre os membros do grupo, remetendo as grandes violências para o domínio das tensões naturais a gerir como base para a maturidade e a colaboração.

Faz parte do ser um/a cidadã/ão numa sociedade democrática ouvir e tentar estabelecer pontes entre as diferenças. Tal não inclui, em contrapartida, pactuar com qualquer tipo de brutalidade, pareça ela mais explícita ou mais velada. O mundo não está menos violento, está violento de uma outra forma. Cabe a cada um/a de nós, sem pretensiosismos ou alardes de superioridade moral, descobrir quando estamos a violentar e quando estamos a ser violentados/as, a fim de alcançarmos o referido “novo sujeito político”.

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