A cave deste restaurante em Kiev tornou-se abrigo de guerra — e o dono alimenta todos

O restaurante de Dave, na capital ucraniana, tem portas abertas para todos os que precisem de uma refeição ou um lugar quente onde dormir. Já mais de 130 pessoas passaram por este bunker improvisado à procura de refúgio da guerra.

Foto
Manish Dave, ao centro, com a sua equipa do restaurante Saathiya em Kiev. Manish Dave

À medida que a ofensiva russa à Ucrânia avançava, a população de Kiev viu-se forçada a procurar refúgio. Manish Dave — proprietário de um restaurante indiano na capital — abriu prontamente as portas a todos.

Nos últimos dias, a cave de Dave transformou-se num bunker improvisado, onde se reuniram dezenas de crianças, mulheres grávidas, estudantes, pessoas sem abrigo e moradores mais velhos, à procura de um lugar protegido dos confrontos violentos. Desde que a Rússia declarou guerra na passada quinta-feira, Dave já acolheu e alimentou mais de 130 pessoas.

Foto
Natali Antontseva, de 32 anos, ficou por uma noite no restaurante em Kiev. Manish Dave

“Vou continuar a oferecer abrigo e comida enquanto puder”, garante Dave, de 52 anos, ao telefone com o The Washington Post. Mudou-se de Vadodara, cidade no estado indiano de Gujarat, para Kiev em Outubro de 2021, com a intenção de abrir um restaurante indiano. Queria dar aos estudantes indianos, que são milhares na região, um gostinho de casa. “Abri o restaurante para trazer a cultura da Índia para o país.”

Encontrou um espaço subterrâneo vazio, a cerca de três minutos a pé de um hostel para estudantes internacionais que frequentam a Bogomelets National Medical University, e abriu o Restaurante Saathiya em Janeiro. Ainda o negócio não tinha tido oportunidade de se tornar rentável, explicou Dave, quando se deu o desastre.

“Tudo estava a correr bem”, recorda. “De repente, todas estas coisas aconteceram. Fogo, explosões, bombas”, continuou. “Tem sido muito assustador. As pessoas estão aterrorizadas.”

Quando uma avalanche de explosões irrompeu, e os civis procuravam desesperadamente abrigo, Dave percebeu: “Uma cave é um lugar seguro”, constatou. “O espaço é tão grande, eu devia ajudar.”

Primeiro, disse aos seus clientes habituais — que são sobretudo estudantes — que podiam ficar no seu restaurante. Depois, divulgou-o na app Telegram, convidando qualquer pessoa que precisasse de abrigo e comida a passar por lá.

“Se não tiver nenhum lugar seguro adequado para ficar durante este tempo, por favor venha para aqui”, escreveu, e incluiu a morada do restaurante. “Faremos o nosso melhor para garantir comida sem custos e alojamento de acordo com a nossa capacidade. Mantenham-se unidos pela Ucrânia.”

Todos são bem-vindos, sublinhou numa entrevista telefónica: “Qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade, pode vir aqui e refugiar-se.” Em pouco tempo, desconhecidos começaram a chegar, entre eles Natali Antontseva, de 32 anos, que nasceu no Leste da Ucrânia e se mudou para Kiev em 2012 para começar a carreira numa empresa de serviços e bens industriais.

Na passada quinta-feira, às 4h30, Antontseva recebeu uma chamada urgente do marido, a trabalhar no estrangeiro. “Levanta-te!”, gritou ele através do telefone. “A Rússia está a bombardear Kiev. A guerra começou!

Em pânico, Antontseva conduziu até casa da mãe e do irmão e juntos começaram a procurar o abrigo mais próximo. A ela juntaram-se amigos, incluindo uma mulher no seu nono mês de gravidez e o marido.

Depois de passar por um abrigo “molhado, sujo” e sem “electricidade ou água potável”, encontraram o restaurante de Dave, contou Antontseva ao The Washington Post.

“Não consigo explicar a nossa felicidade quando entrámos numa sala limpa e quente, com um cheiro agradável a especiarias indianas”, disse Antontseva. “Apesar de não existir muito espaço, as portas foram abertas a todos. Ofereceram-nos chá quente e jantar. Também fiquei feliz pela minha amiga grávida, que pôde dormir num pequeno sofá em vez de no chão frio da cave em que estávamos antes.”

Kiev está cheia de bunkers moribundos da época da Guerra Fria, mas a maioria ficou degradada ou foi reabilitada. Nas semanas que antecederam a invasão, o governo local publicou um mapa de abrigos, mas os residentes ficaram confusos. Encontraram-nos a ser utilizados como cafés, armazéns e, num dos casos, um bar de striptease.

Antontseva ficou no abrigo de Dave durante uma noite, antes de partir com a família para a região ocidental do país — uma viagem que durou dois dias.

Contam que Dave “estava preocupado” com a sua segurança, mesmo depois de partirem. “Ainda estamos em contacto com ele”, acrescentou Antontseva. “A guerra mostrou como é importante mantermo-nos humanos, sem olhar a etnias, nacionalidades ou religiões.”

Nataliya Hernandez Flor, de 38 anos, e a família também se abrigaram no Restaurante Saathiya. Desde quinta-feira que Hernandez Flor lá está com o marido e os quatro filhos, assim como com os seus pais.

Hernandez Flor nasceu em Kiev e conversou com o The Washington Post através do WhatsApp. “Estamos muito gratos”, escreveu, acrescentando que Dave e a sua equipa de 11 funcionários – todos albergados no restaurante — são “muito hospitaleiros, educados e atenciosos”. Além disso, “cozinham refeições muito saborosas”, comentou Hernandez Flor.

Dave tem alimentado os requerentes de asilo gratuitamente. Ele e a sua equipa preparam pratos tradicionais indianos, como o dal, servido com arroz. No entanto, para satisfazer todos os paladares, estão “a tentar cozinhar menos comida picante”, salientou Dave, acrescentando que o negócio do restaurante foi fechado e assim permanecerá nos próximos tempos.

Também cozinham massas simples e outros pratos europeus económicos e fáceis de preparar em grandes quantidades. Dado o afluxo de gente, tiveram de racionar os seus recursos. “Já recebemos, num dia, 130 pessoas”, afirmou Dave.

Recusa-se a aceitar dinheiro dos que comeram ou dormiram no seu restaurante, explicando que “são como família”. “Todos contribuímos com algo, não com dinheiro”. Em vez disso, Dave pediu às pessoas que comprassem produtos de mercearia, para que pudesse continuar a cuidar dos que precisam durante o máximo de tempo possível. “Estão a doar arroz, comida e legumes”, disse. “Estamos todos a contribuir e a partilhar.”

Além de assegurar que os que estão no restaurante estão bem alimentados, ele e o seu pessoal têm estado a entregar comida a outro bunker próximo.

Embora Dave espere que o seu abrigo e refeições sejam um pequeno conforto no meio do caos, estão “em pânico”, assume. “Todas as noites ouvimos explosões e tiros”, confirmou Hernandez Flor.

Enquanto indiano na Ucrânia, a situação para si, diz Dave, torna-se cada vez mais preocupante, uma vez que o seu país de origem se absteve na votação de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando a invasão russa.

“Estamos todos a salvo na cave do meu restaurante, mas, no exterior, quando caminhamos, sentimo-nos muito pouco seguros”, confessou, adiantando que muitos dos seus clientes habituais fugiram para o lado Oeste da Ucrânia, mais próximo da União Europeia e das tropas da NATO.

Dave é viúvo e explicou que a sua família na Índia — incluindo a mãe e a filha — está “bastante preocupada”. Ainda assim, espera poder ficar na Ucrânia por agora. Se a situação se agravar ainda mais, não tem opção: “Precisarei de ir.” Caso aconteça, tenciona entregar as suas chaves para que as pessoas possam continuar a abrigar-se no restaurante pelo tempo necessário.

Entretanto, à medida que a crise se agudiza, acolherá qualquer pessoa que se dirija à sua porta em busca de ajuda. “Estou a dar o meu melhor.”

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post

Sugerir correcção
Comentar