Uma adulta abandonada na floresta da infância

No derradeiro espectáculo da sua “trilogia da família”, os Peeping Tom mergulham num universo infantil muito pouco idílico, assombrado por perigos, medos e traumas. Kind viaja até ao Teatro Aveirense, ao CCB e ao GUIdance nos próximos dias.

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© Olympe Tits
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Quando vemos Eurudike De Beul, uma mulher adulta, cabeça ornada por dois totós, vestido veraneante e o corpo depositado em cima de uma bicicleta demasiado pequena para si, dando duas voltas à clareira da floresta antes de sair de cena uma primeira vez, não sabemos ainda bem o que nos espera. Há desde logo, nos primeiros segundos de Kind, um humor retorcido, uma perversidade insinuada, uma sugestão clara de que a fronteira entre bem e mal é capaz de ainda não ter sido activada. Mas essa certeza só chega em pleno pouco depois, no momento em que a violência emerge na peça sem qualquer pudor, tornando evidente que o universo infantil que os Peeping Tom quiseram explorar no capítulo derradeiro da sua trilogia dedicada à família não se faz de imagens belas e evocadoras de um imaginário pueril. A inocência que aqui encontramos — e que não está realmente ausente — diz antes respeito à falta de uma censura social e comportamental, à falta de obediência a claros códigos morais.

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