Lourdes Castro: E há outra maneira de estar?

O cardeal José Tolentino de Mendonça aceitou escrever para o PÚBLICO um comentário sobre Lourdes Castro, sua amiga e conterrânea e para quem, diz, “a arte era um intransigente pensamento sobre o estar. Não deixa apenas obras que podemos ver nos museus de arte contemporânea. Ela deixa uma visão. E tal constitui um facto político raro”.

Nos últimos meses, quando os amigos lhe perguntavam como estava, Lourdes Castro respondia: “Estou”, “eu estou, ponto”. E dizia isso sem nenhum conformismo ou desalento. Ela estava. E estar era para ela, a cada momento, a possibilidade de ser, de sentir-se viva a averiguar o mundo vivo, a começar por aquele mais perto de si: o mundo refletido no seu jardim onde ela nunca aceitou distinguir as plantas cultivadas daquelas selvagens, como nunca aceitou discriminar as sombras face à luz. Foi esse o seu pacto. Ela estava e, até ao fim, tudo o que era genuinamente vivo a acompanhava.

Sombra projectada de René Bertholo, 1965. Escreve a Gulbenkian: "A artista continua a tomar como modelos as pessoas que lhe são próximas afectivamente – neste caso o seu companheiro. Roubando-lhes directamente a sombra, a artista explora a possibilidade de apropriação de um momento que se sabe fugitivo. Neste suporte em específico, está também convocada a interacção entre a pessoa, e os gestos simples ou objectos comuns e simbólicos do quotidiano, nomeadamente nesta obra – a máquina de escrever." Centro de Arte Moderna Gulbenkian
Sombra projectada de Claudine Bury, 1964. Escreve o Museu Berardo: "A pequena placa de apresentação contém um texto de Pierre Restany, fundador do movimento Nouveaux Réalisme, ao qual a artista está associada. No seu atelier, Castro tinha por hábito alinhar os seus convidados contra uma parede, criando uma projecção da silhueta que traçava a lápis macio. Apesar da frieza do processo, conseguia preservar uma certa sensibilidade. Depois, passava à pintura: aqui, uma mancha negra, uma linha azul e um fundo amarelo sujo. Na operação de desmaterialização, a sombra define uma evocação alusiva, uma ausência, um universo fantasmagórico. Ela traça o contorno da alma humana. Nessa poesia fugidia e paradoxal, a sombra capturada torna-se independente do sujeito, da luz que a produz e, logo, do tempo. Claudine Bury era mulher do artista plástico Pol Bury, amigo de Castro e René Bertholo." Museu Berardo
Ombre portée de Dilma Gamara, 1967. Serigrafia a cores em duas placas de plexiglas Museu Berardo
Grande herbário de sombras (Sombra de Datura), 1973. "No Verão de 1972, quando se encontrava na Madeira, Lourdes Castro irá captar as sombras das cerca de 100 espécies botânicas que rodeavam a sua casa, com o objectivo de 'mostrar a riqueza inesgotável das árvores, ervas, frutos e flores da Madeira.'", escreve o CAM. "O Grande Herbário de Sombras, que dá nome ao conjunto a que esta fototipia pertence, é prova de um trabalho meticuloso, no qual a artista associa a cada espécie representada, a respetiva etiquetagem, constando o nome científico, nome vulgar, habitat. Tal como o modelo, estas sombras inundadas de luz devem a sua existência ao sol, surgindo por meio da impressão direta do motivo em papel heliográfico." Centro de Arte Moderna Gulbenkian
Sombra projectada de Micheline Presle, 1965. Pintura a óleo sobre "ciré" preto Museu Berardo
Sombra de Dália, 1970. Serigrafia Centro de Arte Moderna Gulbenkian
Sombra projectada de Solange Dias, 1973. Serigrafia Centro de Arte Moderna Gulbenkian
Caixinha Óculos, 1962. Uma assemblage de elementos em madeira, metal e plástico Museu Berardo
Caixa madeira, 1963 Centro de Arte Moderna Gulbenkian
Caixa azul, 1963. Escreve o CAM: "A partir de 1961, quando se encontrava em Paris, Lourdes Castro explorou processos e recursos criativos paradigmáticos do movimento conhecido em França como Nouveau Réalisme, demarcando a essa data, o abandono definitivo da pintura tradicional e o interesse pela objectualidade. A (...) obra é criada a partir da apropriação e acumulação de objectos utilitários pertencentes ao quotidiano da vida moderna, que são depois arrumados ou emoldurados numa caixa de madeira e transformados através de um elemento uniformizador que é, neste caso, a cor azul. Como uma 'natureza morta' realista, estes objectos obsoletos descontextualizados do substracto utilitário, são investidos de uma nova nobreza e significado, antes imperceptível." Centro de Arte Moderna Gulbenkian
La place en marche, 1965. Três placas de plexiglas azul recortado. Escreve Pedro Lapa: "A partir de 1964 a artista inicia uma série com acrílicos transparentes, incolores e a cores, articulada com a retroprojecção de silhuetas e a concretização de combinações sensoriais com uma luminosidade colorida. Em La place en marche, o recorte das superfícies coloridas suspende-se no espaço, indicando o passo acertado de casais em movimento, em detalhes isolados que sugerem a identificacção feminino/ masculino. Assim, os limites do pictórico e as dicotomias abstracto/ figurativo são superados com a reconstituição das suas sombras." Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
Sombra projectada de Ana de Castro, 1965. "A releitura que Lourdes Castro realiza sobre o género do retrato baseia-se no esvaziamento dos traços identificativos do retratado, neste caso a sua irmã, que assim abandona o individual para se converter no congelamento gestual de um instante quotidiano da realidade: uma mulher no momento em que lhe calçam um sapato", escreve Maria Jesús Ávila. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
Sombras projectadas bolsas e laranjas, 1965. "Como na pintura, Lourdes Castro pinta sobre o plexiglas gestos quotidianos e individuais da vida, retendo assim a sua existência constantemente variável", escreve Maria Jesús Ávila. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
Comedor, 1961. Pedro Lapa: "Entre 1961 e 63, Lourdes Castro estabelece-se em Paris e edita a revista KWY (1958-63) com René Bertholo. Nestes anos realiza as primeiras assemblages, semelhantes às de Arman, com objectos do quotidiano acumulados e colados em recipientes, formando conjuntos sem coerência formal, ou de uso e conteúdo. Esta ausência de relações explícitas contrasta com a uniformidade da cor, uma purpurina cor de alumínio que se estende por toda a obra e neutraliza alguma eventual funcionalidade." Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
Sombras deitadas, 1969. Pedro Lapa reflecte: "A preocupação pelo contorno, revelada desde 1964 nos seus trabalhos em acrílico, radicaliza-se e relaciona-se com o quotidiano quando a autora inscreve a figura em lençóis, através do bordado, técnica que não será alheia às suas origens madeirenses." Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
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A artista, um dos maiores vultos da arte portuguesa, morreu este sábado, aos 91 anos, no local onde nasceu a 9 de Dezembro de 1930: a ilha da Madeira.

Uma das derradeiras coisas que escreveu foi ainda sobre a teoria do estar. Numa agenda de mesa, ela gravou, com dificuldade, as palavras: “E há outra maneira de estar?”. E contava com insistência o que a havia levado a escrevê-las, para que não o esquecêssemos. Muita gente, ao longo de toda a vida, lhe disse: “Lourdes, tu estás sempre contente”. Recordando-se agora disso, ela quis deixar escrito num papel: “E há outra maneira de estar?”. Uma interrogação que possui o valor de um testamento.

Para Lourdes Castro, a arte nunca foi simplesmente um fazer. A arte era um intransigente pensamento sobre o estar. Por isso, não deixa apenas obras que podemos ver nos museus de arte contemporânea. Ela deixa uma visão. E tal constitui um facto político raro.

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