“Não nos resta nada“: para as famílias afegãs, a próxima refeição é uma questão de fé

Desde que os taliban assumiram o controlo, “não há trabalho, os preços subiram, as pessoas deixaram o país”. Para os mais pobres do país assolado por conflitos e uma seca severa, o frio cortante do Inverno também trouxe fome. “Não nos resta nada.”

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Reuters/ALI KHARA
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Com a chegada do Inverno, Kubra, uma viúva afegã, precisa de encontrar uma forma para aquecer o quarto onde oito membros da família vivem, na província central de Bamiyan. A farinha que compraram há meses está a esgotar-se, pelo que a comida também já escasseia.

“Recebemos dois sacos de farinha na Primavera passada, que ainda estamos a utilizar. Depois disso, temos de ter fé que Deus nos ajudará”, contou à Reuters, numa sala forrada com sacos de arroz para manter o frio afastado.

A lenha que tinham foi roubada quando saíram de casa no meio do caos que engoliu o Afeganistão no Verão, à medida que os rebeldes taliban se dirigiam para Cabul a caminho de retomar o controlo do país.

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Histórias como as de Kubra são cada vez mais comuns num país atingido por uma seca severa e onde o dinheiro se esgotou.

Antes de os taliban derrubarem o Governo apoiado pelo Ocidente em Agosto, a economia dependia fortemente da ajuda estrangeira. Mas com a comunidade internacional desconfiada do movimento militante islamista e os Estados Unidos a impor sanções a alguns dos seus líderes, o apoio externo praticamente desapareceu.

As Nações Unidas estimam que quase 23 milhões de afegãos, cerca de 55% da população, enfrentam níveis extremos de fome, com quase nove milhões em risco de fome à medida que o Inverno se instala.

Najeeb Allah, 42 anos, vendedor de fruta, à porta da sua loja. Ali Khara
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Um membro dos talibãs inspecciona sapatos à venda no mercado Ali Khara
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A vida para os mais pobres do Afeganistão tem sido sempre difícil: a família Kubra trabalha em quintas na Primavera, a ganhar batatas em vez de dinheiro. Mas a situação está a piorar. Vegetais como a couve-flor estão fora do seu alcance, lonas de plástico protegem a casa do tempo gelado e da neve. Há tão pouco espaço no quarto que Kubra dorme em casa da sua irmã.

“O meu filho costumava recolher peças da sucata, mas neste momento não tem trabalho”, diz.

Já vulneráveis após meses de seca severa e décadas de guerra que forçaram muitos a fugir das suas casas para regiões relativamente estáveis como Bamiyan, os afegãos estão a entrar no desconhecido.

Não resta nada

“Nunca tínhamos tido tipos diferentes de alimentos, mas no passado estava tudo bem, tínhamos arroz e óleo de cozinha”, diz Massouma, de 26 anos, mãe de quatro, da província vizinha de Maidan Wardak. “Costumávamos cozinhar uma vez por dia e estava tudo bem. Agora é uma vez por semana e por vezes não há sequer pão para comer.”

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Razia, 35 anos, com um dos seus filhos em frente à sua casa. Ali Khara

Bamiyan é mais conhecida fora do Afeganistão por ter imposto monumentos budistas que dominam a pequena cidade 20 anos após os taliban terem explodido as duas estátuas gigantes que outrora olhavam para as planícies altas.

No Inverno faz um frio terrível. O trabalho abranda nos meses frios, mas a região já estava a ser afectada desde que os visitantes que em tempos vinham para os locais budistas e para o lago vizinho Band-e Amir desapareceram à medida que a ofensiva rebelde atingiu o seu clímax.

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Uma bandeira talibã em frente às ruínas de uma estátua de um Buda com 1500 anos. Ali Khara

Os dirigentes taliban dizem estar conscientes dos problemas com que os pobres se deparam, os quais, segundo eles, provêm em parte dos efeitos de mais de quatro décadas de conflito e má gestão sob o anterior Governo. Também apelaram repetidamente a Washington que desbloqueasse cerca de nove mil milhões de dólares em activos do banco central.

“Pretendemos atenuar estes problemas”, diz o porta-voz taliban Zabihullah Mujahid. “Sabemos o que o povo está a enfrentar”.

Dinheiro por direitos

A crise que o Afeganistão enfrenta neste Inverno é de uma magnitude não vista há pelo menos 20 anos, quando os taliban foram depostos pelas forças apoiadas pelos EUA e substituídos por governos em Cabul que dependiam fortemente do apoio estrangeiro, tanto financeiro como militar.

Com os antigos rebeldes de volta ao poder, o sistema financeiro está praticamente bloqueado, provocando um colapso da moeda local afegã.

A comunidade internacional procura restaurar a ajuda externa, pressionando os taliban a tornarem-se mais inclusivos e assegurar os direitos humanos básicos, incluindo o levantamento das restrições que mantêm as mulheres e raparigas afastadas do trabalho e da escola.

Tal como outros oficiais taliban, Mujahid garante que o novo Governo está lentamente a abrir escolas para raparigas e prometeu uma amnistia para os antigos oficiais do Governo. Também referiu a recente nomeação de um vice-ministro da Economia da minoria Hazara como prova de que o Governo se estava a tornar mais inclusivo.

Enquanto as disputas continuam, pessoas como Sayed Yassin Mosawi têm preocupações mais imediatas.

“No Inverno, normalmente pedimos emprestado o que precisamos às lojas ou ao padeiro e reembolsamos o empréstimo após dois ou três meses, quando o trabalho começa a melhorar”, conta o porteiro do mercado, cujo rendimento desce para entre 30-50 afghani (menos de 50 cêntimos) por dia, durante os calmos meses de Inverno.

“Mas tem havido grandes mudanças”, lamenta. “Desde que os taliban assumiram o controlo, não há trabalho, os preços subiram, as pessoas deixaram o país. Não nos resta nada”