Uma dor longe de ser passageira

Marta Azinhaga, a viúva de Nuno Santos, que perdeu a vida na A6 no dia 18 de Junho, atropelado pela viatura onde seguia o ministro Eduardo Cabrita, ainda não saiu do pesadelo. À família ainda não foi concedido um desfecho para a morte de Nuno. Não querem culpados, querem justiça. Para que possam fazer o seu luto. Marta sente-se perseguida. Deu-nos esta entrevista de forma quase secreta.

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A face de Marta é como um mapa de dor, tracejado por lágrimas ao mínimo instante. A vida tornou-se mais negra do que o luto que veste. Se ela mandasse nas lágrimas, estas seriam de felicidade, viajando até 1997, quando tinha 16 anos e juntou os seus trapinhos aos de Nuno, o amor da sua vida, que tinha 18. Eram tão jovens, tão coloridas as suas roupas, os sonhos nómadas, o futuro sem fim, exactamente como hoje se encontra a tristeza. Se ela mandasse no tempo, capturava-lhe alguns segundos. O tempo de um beijo que ele lhe dava quando ia para o trabalho; o tempo de ver as horas; o tempo de um pensamento, de uma lembrança, de um esquecimento, de um olhar, um pássaro a pousar, um dar de mão, um toque, um sorriso, uma hesitação, um som, uma interjeição, um atacador desatado, uma sombra, um imponderável, uma coisa de nada que o distraísse; um lapso de rotina; qualquer coisa que o tivesse detido num fragmento; algo fora daquele lugar, daquele tempo, que o tivesse afastado daquela sua rota de colisão. Se ela mandasse no tempo, “amanhã já era Fevereiro”. Já tinha passado o Natal, o fim de ano, todas as ocasiões festivas deste mundo, assim como as férias judiciais. “Para nós, não vai haver Natal. Perdi o meu marido, as minhas filhas perderam o pai, os pais, um filho, a irmã, um irmão, os sobrinhos, um tio. Somos muito unidos, agora ainda mais. Falamos todos os dias. Mas, desde que o Nuno morreu, não conseguimos estar todos juntos. É demasiado doloroso, este vazio que ele nos deixou.”

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