Michele Lopes: o rio à vela com uma viajante ao leme

Uma skipper no Douro que gosta de mostrar aos turistas que estão num lugar maravilhoso.

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Michele Lopes Rui Oliveira

Manobrar um barco, rio acima, rio abaixo, entre Folgosa e o Pinhão, “é simples”, mas para Michele Lopes ser skipper no Douro é mais do que isso. Quando pode, conta, põe o piloto automático e vai “lá à frente”, mapa na mão, dados históricos na cabeça e o coração na boca. Gosta de ver os turistas “render-se à evidência” de que estão num lugar maravilhoso. Lembra-lhes que estão em paisagem património da humanidade, entre “algumas das vinhas mais antigas do mundo” e “feitas à mão, murinho por murinho, socalco por socalco”. “Cada um dos muros e socalcos foi feito por animais, homens e ferramentas pequeninas ao longo de pelo menos os últimos dois mil anos… É como as pirâmides…”, continua a surpreender-se. Também se rendem, claro, ao rio, ao sol e ao vinho “de 14,5 graus” que é servido nos passeios de veleiro da Douro à Vela, onde trabalha há três anos.

Aí já viu de tudo: desde sessões fotográficas de noivas, pedidos de casamento, striptease e, há não muitas semanas, teve como único passageiro um russo proprietário de uma equipa de futebol — “um daqueles em que recebes chamada de hotel a avisar que é um cliente que chegou de jacto privado e que é um cliente difícil”. Pelos três barcos da Douro à Vela — o Entremargen’s, o Libertu’s e o Julieta — são estrangeiros a maioria dos que passam — 98%. Contudo, nos dois último anos, o “paradigma de turistas mudou”: “Tivemos mais portugueses do que estrangeiros e mais do que alguma vez havíamos tido.” Michelle crê, porém, que é por causa da pandemia. “Os portugueses não vêem o Douro como destino de férias, tal como o fazem com o Algarve”.

Entre os clientes, há “dois extremos”: os que só querem “fazer uma passagem, estar duas horas a bordo a ver o pôr do Sol e a tomar um copo de vinho” e os que “já têm bastante cultura vínica e que vêm cá porque é o Douro”. Esses, diz, “vêm ao Douro como vão a Napa Valley, à Toscana, à África do Sul ou Bordéus” — e querem comparar. “Passam o dia inteiro connosco, visitam uma quinta, almoçam num restaurante ou, por vezes, a bordo. No Verão, pedem para parar o barco no rio e mergulhar.” A Douro à Vela, tem parcerias com quintas e restaurantes, tem serviço de transfers — está inserida no ecossistema da beira-rio.

Michele, de 42 anos, lembra-se do rio desde sempre. Cresceu com ele por perto. “O Douro sempre esteve no cantinho da foto. Com visão muito naïve, claro, sem pensar em barcos”, reflecte, “até porque não havia quando cresci. Isto tem menos de 15 anos no Douro”.

Nasceu no Rio de Janeiro, de pais naturais de uma pequena aldeia de Vila Real. Acabou por crescer em Vila Real, mas passou por Lisboa, onde estudou Matemática Aplicada e trabalhou em private banking; seguiu para o México, durante cinco anos, como analista financeira e directora no Ministério das Finanças — tempos depois, percebeu que nessa altura, quando tinha saudades de Portugal, a imagem que lhe vinha à cabeça era a da paisagem duriense vista de S. Leonardo da Galafura. “Eram os cenários da minha infância, dos meus fins-de-semana.”

Esteve ainda na Índia, a estudar sânscrito e ioga, de que se tornou professora de regresso a Vila Real. Os barcos vieram depois. Começou nas limpezas mas pouco tempo depois tirou a licença de navegação para embarcações marítimo-turísticas em “modo express”: a formação dura, normalmente, três meses, Michele fê-la em duas semanas. Identificou-se tanto “com o ar livre, os barcos” que viajou até à Nova Zelândia para navegar. De volta a Vila Real, foi para a Douro à Vela. Não sabe se será para sempre, mas vê-se no Douro por muito tempo ainda. “Tenho a sensação de que ainda tem muito por onde crescer. Em todos os sentidos”.

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