Nova arquitectura no Douro: render-se ou desafiar a paisagem

Um miradouro, duas adegas, novas unidades hoteleiras.... Visita guiada a alguns exemplos, de diferentes tipologias, de intervenção arquitectónica nesta região Património da Humanidade, com o catálogo do Prémio Arquitectura do Douro (e a paisagem) sempre em fundo

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Já se sabe que o Douro é um território que nos oferece uma infinidade de lugares que são miradouros para o “excesso de natureza” de que falava Miguel Torga, a propósito do de S. Leonardo de Galafura. Mas, e desde 2019, o miradouro de que agora se fala é o do Újo, em São Mamede de Ribatua, com uma vista soberba sobre a albufeira da recém-construída barragem hidroeléctrica do Tua.

Sobe-se a dezena de degraus da estrutura em ferro desenhada pelo arquitecto Henrique Pinto e pelo engenheiro Filipe Calisto, e à nossa frente espraia-se o leito agora engordado do Tua recortado numa paisagem de cortar a respiração.

Além da beleza da vista sobre a amplidão da paisagem, este é um lugar com ressonâncias míticas no imaginário popular local. Újo é o nome comum do bufo real, uma rapina malvista na região, que rivalizava com a mais simpática águia-de-bonelli, e cujo porte de grande dimensão se encontra representado numa gravura do escultor Laureano Ribatua, com uma referência ao seu “piar assustador e de mau agouro”.

“A ideia inicial foi desenhar uma plataforma como se fosse uma ave, e nela convidar o visitante-espectador a sentir como se estivesse a voar nas suas asas”, explica ao PÚBLICO o arquitecto Henrique Pinto.

No cimo deste miradouro-escultura, parece, de facto, que perdemos o pé: sobrevoamos a curva do rio, “a memória das fragas más que o caracterizavam quando, antes da construção da barragem, ele era apenas um curso de rápidos”, lembra o arquitecto; as margens com uma arborização autóctone de pinheiros, sobreiros, carvalhos e azinhos; e alguns caminhos até à povoação longínqua da margem esquerda do Douro.

Acumular prémios

Numa região que deve tanto à natureza bruta como à mão do homem que a domesticou para seu uso e privilégio, o Miradouro do Újo é, pelas suas características e simbolismo, um bom exemplo da diversidade das intervenções de arquitectura que a região do Douro tem vindo a acolher nas últimas três décadas. E a lista das obras premiadas e mencionadas pelo prémio (irregularmente) bienal Arquitectura do Douro, lançado em 2006 pela CCDR-Norte para “promover a cultura arquitectónica e as boas práticas do exercício da arquitectura na paisagem da região” é um bom indicador dessa variedade, tanto tipológica como autoral.

Nas seis edições já cumpridas — o concurso para a seguinte vai ser lançado a 14 de Dezembro (dia do 20.º aniversário da inscrição da UNESCO), com a inclusão no júri do arquitecto Eduardo Souto de Moura, vencedor da última edição com a Central Hidroeléctrica do Tua —, foram também distinguidas adegas, museus e até um centro de performance desportiva. E entre as menções honrosas há ainda espaços culturais e edifícios de culto religioso (ver caixa no final do texto).

“O Prémio Arquitectura do Douro, na sua diversidade, afirmou-se já no panorama da arquitectura portuguesa”, diz António Belém Lima, arquitecto de Vila Real, que é um dos mais citados na lista da CCDR-N. “É, sem dúvida, um prémio de grande mérito, muito justificado e que tem sido bem atribuído”, atesta o professor e crítico de arquitectura Jorge Figueira.

A primeira obra distinguida pela Comissão, em 2006, foi a Adega da Quinta da Touriga, em Vila Nova de Foz Côa, de autoria do arquitecto António Leitão Barbosa. Historicamente, “foi com as adegas que tudo começou, nos anos 90”, nota, de resto, Belém Lima, na visita em que guiou o PÚBLICO pela adega que projectou para os Lavradores de Feitoria, na Quinta do Medronheiro, em Sabrosa, ainda em fase de acabamentos, mas já em plena laboração vinícola (o arquitecto vila-realense é também o autor da Adega Alves de Sousa, na Quinta da Gaivosa, menção honrosa em 2017; e recebeu o Prémio Arquitectura do Douro em 2008, pelo Museu da Vila Velha, na sua cidade natal).

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Visita guiada

Chega-se à quinta dos Lavradores de Feitoria por um caminho que serpenteia o velho medronheiro até um pequeno planalto onde a nova adega, ao mesmo tempo que se impõe pela volumetria, com o seu cinzento-antracite esbate-se de forma orgânica entre as cores outonais das vinhas.

“Esta adega foi feita no ano da covid, e demorou bem menos tempo do que a Alves de Sousa, mesmo se é maior duas vezes e meia”, diz Belém Lima. As restrições provocadas pela pandemia obrigaram a que fosse prefabricada em betão, para poder entrar em funcionamento no mais curto espaço de tempo, respondendo às necessidades empresariais da cooperativa.

Constituída por dois grandes edifícios ligados entre si, a adega, à imagem do que vem acontecendo com os equipamentos congéneres construídos nas últimas décadas, está dotada com os mais modernos equipamentos para a exploração vinícola. “Por se tratar de um edifício agro-industrial, tem de ser funcional, mas nunca deixamos que o lado fabril se sobreponha à arquitectura”, acrescenta o arquitecto, conduzindo-nos pelos seus diferentes espaços e serviços: a recepção das uvas — “é um momento heróico e de grande bulício no ciclo das vindimas, quando os enólogos avaliam se o ano foi bom ou mau”, nota —, a vinificação, a cave das barricas, o engarrafamento e a expedição. Em paralelo, respondendo à vertente enoturística, há o percurso de visitas, que termina na sala de provas e num restaurante com vista ampla para as vinhas e a paisagem envolvente.

Adega da Quinta do Vallado, que em 2011 valeu a Francisco Vieira de Campos uma das três menções honrosas do Prémio Arquitectura do Douro
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Estética de todo diferente é a da Adega da Quinta do Vallado, que em 2011 valeu a Francisco Vieira de Campos uma das três menções honrosas do Prémio Arquitectura do Douro que já conquistou com as suas intervenções para aquela empresa de Peso da Régua — as outras sendo o Hotel Vínico Quinta do Vallado (2014) e a Casa do Rio (2019).

Espécie de “arquitecto residente” desta empresa setecentista ainda nas mãos de descendentes da lendária Dona Antónia “Ferreirinha”, Vieira de Campos explica ao PÚBLICO ter chegado à Quinta do Vallado pela “generosidade” de Eduardo Souto de Moura, que apadrinhou a sua escolha para, inicialmente, projectar uma nova unidade residencial contígua à casa senhorial da propriedade.

“Foi em 2006: comecei por ir ver o sítio para o hotel, mas, entretanto, a adega passou a ser mais urgente.” E seria esta a avançar, naquilo que se tornaria uma estreia na carreira do arquitecto portuense nesta tipologia. Depois de uma viagem pelas adegas durienses — cita, em particular, a da Quinta da Romaneira (2005/07), dos arquitectos Arnaldo Barbosa e João Barbosa —, Vieira de Campos foi também lá fora, visitar, por exemplo, na Suíça, as Termas de Vals, de Peter Zumthor.

“Mais do que a especificidade do programa adega, eu estava à procura de como inserir um grande edifício — era isso que me estava a ser pedido — numa escarpa, numa morfologia acidentada”, recorda o arquitecto, a justificar o interesse pela obra do Prémio Pritzker 2009. “As Termas de Vals são um edifício encastrado na montanha”, acrescenta Vieira de Campos, que utilizaria esse modelo para estratificar o desenho da sua adega na paisagem natural, em declive, da quinta duriense. Com dois módulos novos associados aos edifícios existentes, o arquitecto projectou um edifício interligado, e bastante arrojado, para responder às exigências do ciclo vinícola. “A resolução de uma adega que funciona por gravidade obriga ao entendimento de todo o sistema produtivo e a um grande rigor, disciplina e restrição na implantação das cotas dos edifícios”, explica a memória descritiva do projecto. A seguir, Vieira de Campos foi chamado a desenhar o novo hotel do Vallado, que seguiria “uma estratégia completamente diferente, até do ponto de vista da linguagem arquitectónica”, nota, explicando a relação das duas obras com a ajuda da maqueta no seu atelier Menos é Mais, no Porto.

Ao invés do que lhe tinha sido proposto pelo cliente, optou por “uma demarcação clara do edifício preexistente” fazendo com que o novo, até “pela volumetria que iria ter, se diluísse nos muros de xisto e na paisagem característica do Douro, com os muros e as volumetrias a misturarem-se com os materiais naturais da região”. O resultado é surpreendente, como pode constatar quem agora visita, ou usufrui deste complexo industrial e de lazer na margem esquerda do rio Corgo, bem junto à Régua.

Programa também completamente diverso deste é o da Casa do Rio, implantada numa escarpa da topografia acidentada do Douro Superior, em Vila Nova de Foz Côa. Trata-se de uma construção prefabricada em madeira, suspensa sobre uma linha de água sazonal, e que teve de responder às limitações estritas da legislação. “Só havia aquele sítio — uma enseada onde antes havia um laranjal e umas ruínas, entretanto recuperadas também para alojamento turístico — e foi ele que impôs a regra”, diz o arquitecto, que teve a preocupação de deixar o vale “quase intocável”.

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A Casa do Rio, na Quinta do Orgal, veio assim acrescentar-se à vasta e diversificada panóplia de arquitectura que vem marcando uma nova imagem do Douro.

De regresso aos lugares-miradouro, um salto à Quinta Vale das Papas, cuja vista sobre o meandro do rio Douro junto ao Pinhão rivaliza com o miradouro vizinho de Casal de Loivos. A recém-construída unidade hoteleira assume-se como uma varanda suspensa sobre essa paisagem única, com uma arquitectura que cumpre esse programa através do uso dos materiais locais, com predominância para o xisto, aqui integralmente talhado pelo operário da terra Nuno Moreira. “O Dr. José Fernandes da Silva passou de barco lá em baixo, gostou do sítio, veio cá no dia a seguir e comprou esta velha quinta”, diz ao PÚBLICO Nuno Moreira, que, entretanto, se tornou empresário e ficou com a concessão do equipamento. “A minha actividade sempre foi o xisto, que continuo a trabalhar; fui eu que revesti este hotel todo, durante quase um ano, mas agora estou também a dedicar-me ao turismo”, revela o operário-empresário, anunciando estar também a apostar num centro de prova de vinhos, e também num parque para autocaravanas a instalar ali perto.

“Daqui vêem-se as três melhores quintas do Douro: Ventuzelo, Symington e Real Companhia Velha; a quarta, há-de ser a Vale das Papas”, desafia-se Nuno Moreira, entre risos, à varanda da (sua) quinta. Um exemplo de uma nova geração de empreendedores locais, que estão a trabalhar em paralelo com as quintas, as famílias e as marcas históricas do Douro. Onde a arquitectura nova está também a render-se, e/ou a desafiar a paisagem.

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