Como tantas outras coisas no mundo, as tecnologias de informação são um reflexo e um causador de desigualdades. Comecemos por uma das mais básicas: a de acesso. 

 O Governo diminuiu o tráfego e a velocidade da tarifa social da Internet, destinada a “consumidores de baixos rendimentos ou com necessidades sociais especiais”, considerando que os valores propostos pela autoridade reguladora podiam representar um "esforço excessivo" para as empresas de telecomunicações.

Por 6,15 euros mensais (IVA incluído e a que se soma ainda o custo do equipamento), os utilizadores com tarifa social terão um limite de tráfego de 15GB, e velocidades mínimas de download e upload de 12Mbps e 2Mbps. Para quem use esta Internet como acesso fixo doméstico, estes são valores muito inferiores aos das propostas comerciais.

Vale a pena desviar os olhos do preço da mensalidade e olhar para o preço do gigabyte de tráfego ou do megabit por segundo de velocidade. Num dos grandes operadores, por exemplo, uma promoção oferece, por uma mensalidade aproximadamente quatro vezes superior à da tarifa social, tráfego ilimitado e uma velocidade quase 17 vezes mais elevada, a que se somam chamadas de voz e quase duas centenas de canais de televisão. A DECO (quando os valores em cima da mesa até eram melhores) já tinha feito as contas

É verdade que uma Internet mínima é melhor do que Internet nenhuma, que não aceder à Internet é uma forma profunda de exclusão social, e que esta Internet social poderá ser a única que alguns cidadãos conseguem pagar. Mas não é uma Internet barata. 

Sigamos pelas desigualdades  de géneros. 

Nas tecnologias de informação, os homens tendem a estar mais bem posicionados do que as mulheres, seja no consumo quotidiano (com uma utilização mais frequente e uma maior literacia digital), como no mundo profissional (com uma maior representação nas profissões do sector).

A pandemia, em que a digitalização em casa e no trabalho deu um salto, veio aprofundar essas diferenças, explica Sónia Jorge, líder da Alliance for Affordable Internet, um programa da Web Foundation, numa entrevista a Teresa Abecasis.

Continuemos pelos números anuais do Instituto Nacional de Estatística, divulgados na semana passada

Os dados mostram que uma das desigualdades digitais entre Portugal e a Europa continua a esbater-se: os utilizadores em Portugal recorrem cada vez mais ao comércio electrónico (e com vantagem para as mulheres: 43% fizeram compras online, contra 37% dos homens). 

De resto, a utilização da Internet segue as habituais linhas divisórias de educação, de condição perante o trabalho e de geografia: a Área Metropolitana de Lisboa surge destacada na utilização da Internet (90% das pessoas entre os 16 e os 74 anos), ao passo que o Norte do país está no outro extremo da tabela (78%).

E chegamos, por fim, às desigualdades existenciais.

Como observa Vítor Belanciano nesta crónica, os magnatas tecnológicos que são os grandes vencedores da economia digital estão à procura de uma saída de emergência: para fugir de um planeta sob ameaças climáticas (Bezos sonha com a órbita terrestre; Musk, com Marte), ou para escapar a limitações humanas, incluindo, em alguns casos, a própria morte

Digno de nota

- Um esquema de phishing, aparentemente muito sofisticado, levou uma advogada a enviar informação a criminosos, que lhe roubaram cerca de 70 mil euros da conta bancária

- Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter, decidiu abandonar o cargo de CEO, que ocupava pela segunda vez. "Não há muitas empresas que chegam ao nível do Twitter. E não há muitos fundadores que escolhem a empresa em vez do seu ego", escreveu num email a funcionários.

- A Apple vai processar a empresa israelita NSO, responsável pelo software de espionagem Pegasus, usado para controlar a actividade de milhares de activistas, jornalistas, executivos de empresas, políticos e funcionários governamentais.

- As marcas de tecnologia de consumo já perceberam há alguns anos que a nostalgia é um bom negócio. Aqui estão três exemplos: novos Tamagochis, uma reinvenção do excelente Nokia 6310, e uma impressora de polaroides. 

4.0 é uma newsletter sobre inovação, tecnologia e o futuro. Comentários e sugestões podem ser enviados para jppereira@publico.pt. Espero que continue a acompanhar.

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