“Babuchas e as Mulheres”: os sapatos que continuam a espezinhar o feminino árabe

Para assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, que se celebra nesta quinta-feira, o Museu do Calçado apresenta uma nova exposição integrada no projecto “Sapatos que Pensam”.

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Na obra de Susana Ribeiro, lê-se "Try walking in my shoes". "Coloca-te no meu lugar", em português. Museu do Calçado

Babuchas, do árabe babujâ, é “uma chinela pontiaguda de origem oriental, geralmente sem contraforte nem salto”. É esta a definição literal que encontramos no Dicionário Priberam. Porém, além das entradas dos dicionários, estas chinelas carregam em si um simbolismo do “sistema patriarcal opressivo” que ainda recaí sobre as mulheres do mundo oriental. É este o ponto de partida para a exposição que abrirá ao público no próximo sábado, dia 27 de Novembro, no Museu do Calçado, em São João da Madeira, com a curadoria artística de Renata Carneiro. 

"Todos temos uma pedra no sapato", de Teresa Pedroso Museu do Calçado
"Simbiose e Cacoon", de Mariana de Castro Museu do Calçado
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Museu do Calçado

Inserida no projecto “Sapatos que Pensam” — com o objectivo de reflectir sobre o peso daquilo que calçamos como forma de representação dos passados, presentes e futuros da sociedade —, a exposição “Babuchas e as Mulheres” remete para um assunto que continua a estar na ordem do dia. Recorrendo à babucha, um calçado usado maioritariamente pelos homens nas famílias tradicionais árabes, as artistas convidadas — todas elas mulheres —, tentaram dar antes protagonismo à oprimida, isto é, à mulher árabe, que segundo as leis muçulmanas, continua a ser relegada a uma posição inferior. Pegando então em temas como o casamento forçado ou o acesso desigual à educação, foram intervencionadas 19 babuchas.

Para a directora do Museu do Calçado, Joana Galhano, esta montra quer fundamentalmente servir de espaço aberto para discutir e denunciar um conjunto de actos de violência, em que a “mulher é absolutamente secundarizada e relegada para o papel de dona de casa, não podendo tomar decisões sem a permissão do pai, esposo ou filho mais velho”, explica ao PÚBLICO. O timing da exposição também lhe pareceu o mais adequado, não só porque se assinala o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher a 25 de Novembro, mas também porque recentemente se assistiu à retoma do poder talibã no Afeganistão, pondo em causa a segurança das raparigas e mulheres, e se continua a discutir questões como a legalidade do uso da burca em público.

Apesar da exposição chegar só agora ao museu, este projecto começou em 2013, quando Renata Carneiro, a artística plástica e também curadora da mesma, sentiu a necessidade de expressar artisticamente o que viu em Marrocos, em que poucas ou nenhumas mulheres andavam nas ruas. Mas, em vez de pegar em telas, decidiu usar as babuchas. “É um suporte diferente para trabalhar e como remete muito para a cultura árabe, achei interessante fazer esta intervenção.” A peça “Entre o preto e o silêncio”, assinada pela curadora e que também estará exposta, recorre às fitas para simbolizar a escuridão a que as mulheres árabes estão condenadas. “As fitas que estão na minha própria obra remetem ao tapar, à pouca liberdade, ao lenço”, explica ao PÚBLICO.

Artística plástica, natural do Porto, está representada em diversas coleções públicas e privadas em Portugal, Espanha, França, Alemanha, Grécia e Japão Museu do Calçado
"Entre o preto e o silêncio" de Renata Carneiro. Museu do Calçado
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A curadora, que já levou a mesma exposição a França e recebeu reacções de todo o tipo, inclusive umas mais controversas por parte de membros da comunidade muçulmana, acredita que o público português tem uma sensibilidade para este tipo de matérias cada vez maior e aceitará com facilidade as obras apresentadas. Patente até ao próximo ano, 3 de Abril, a montra artística será inaugurada este sábado, e contará com a presença de Renata Carneiro e de algumas artistas, assim como foram convidadas algumas famílias migrantes acolhidas pela cidade de São João da Madeira. 


Texto editado por Bárbara Wong

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