Morreu Mick Rock, o fotógrafo dos anos 1970 e dos ícones David Bowie e Lou Reed

Conhecido como “o homem que fotografou os Anos 70”, assinou a capa de Transformer, de Lou Reed, ou de Raw Power de Iggy & The Stooges. Fotógrafo oficial de David Bowie na fase Ziggy, deixou testemunhos essenciais de uma era, dos Sex Pistols aos Ramones, dos Queen a Joan Jett.

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Mick Rock em 2015 na inauguração da exposição "Mick Rock: Shooting For Stardust - The Rise Of David Bowie & Co.", em Los Angeles Angela Weiss/Getty Images

Tinha um nome musical e foi esse género que se distinguiu a fotografar: Mick Rock, autor, entre outras, da famosa fotografia de Iggy Pop de costas dobradas em palco em 1972, morreu aos 72 anos. Fotógrafo oficial de David Bowie na fase Ziggy Stardust e cronista das suas aventuras, é sua a imagem da capa de Transformer, de Lou Reed, ou de Raw Power de Iggy & The Stooges, e são também seus outros instantâneos da cena musical dos anos 1970, dos Sex Pistols aos Blondie ou Ramones. As causas da morte do fotógrafo britânico não foram reveladas.

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"Transformer", de Lou Reed Mick Rock

De acordo com um post na sua conta oficial na rede social Twitter, assinado pela família, Michael David Rock morreu quinta-feira. “É com o mais pesado dos corações que partilhamos que nosso amado renegado psicadélico Mick Rock fez a viagem junguiana para o outro lado”, lê-se no comunicado, publicado na noite de quinta-feira. “Aqueles que tiveram o prazer de existir na sua órbita sabem que Mick sempre foi muito mais do que ‘O Homem que Fotografou os Anos 70'”, dizem os familiares numa referência ao título que lhe era frequentemente atribuído. “Ele era um poeta fotográfico — uma verdadeira força da natureza que passou os seus dias a fazer precisamente o que amava, sempre da sua própria maneira deliciosamente extravagante.”

Michael David Rock nasceu em Hammersmith, Londres, em 1948 e na universidade (estudava Línguas Medievais e Modernas em Cambridge) começou a interessar-se por fotografia ao mesmo tempo que se cruzava com Syd Barrett, acabado de sair dos Pink Floyd, e que lhe encomendou a primeira fotografia de grande visibilidade que fez: a capa do álbum The Madcap Laughs, como nota a revista Hollywood Reporter. “Syd foi um dos meus primeiros retratos”, disse Rock em entrevista a Bonita Lee em 1999. Conheceu-o dois anos antes, quando nunca tinha sequer pegado numa máquina fotográfica. Em 1969 faria a capa do seu primeiro álbum a solo. “Quando cheguei para a sessão fotográfica de The Madcap Laughs, Syd ainda estava de cuecas quando abriu a porta”, recorda Rock.

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"The Madcap Laughs", Syd Barrett Mick Rock

Mas foi outro encontro que marcaria o que se tornou uma carreira fulgurante. Em 1972, Rock conhece David Bowie e passa a ser o seu fotógrafo oficial na era Ziggy Stardust, fazendo desde os registos das digressões até mais uma capa de álbum, desta feita Pin Ups. "Eu era bom a sintetizar e captar o que ele estava a fazer. Ajudei-o com a propaganda, mas a imagem e o estilo de Ziggy Stardust era totalmente o David”, disse à BBC em 2007, quando lançou o DVD que compilava a sua obra, Punk Drunk Love. Foi também com Bowie que trabalhou em vídeo, participando em Life on Mars — que produziu e realizou, a par de Jean Genie ou Space Oddity. Um retrato que Rock fez de Bowie foi capa emblemática da revista Rolling Stone em 1972.

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Pin Ups, de David Bowie Mick Rock

O estilo de Rock “é mais uma coisa intuitiva do que uma coisa altamente pré-concebida”, explicou o próprio à BBC. “O meu trabalho é evocar a aura das pessoas e fotografar. Não estou necessariamente à procura de uma realidade literal, procuro algo que tenha um pouco de magia e muito do que é esse momento ou de onde isso vem é [precisamente] algo que não se pode receitar.”

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A sua carreira fez-se de colaborações com muitos e variados outros nomes da cena musical dos anos 1970, e das décadas seguintes, saltando fronteiras da música para o cinema. A lista dos alvos da sua câmara é longa: Queen (capas dos álbuns Queen II e Sheer Heart Attack), Ramones (capa do disco End of the Century), Joan Jett (capa de I Love Rock ‘n’ Roll), T. Rex, Blondie, Roxy Music, Talking Heads, Misfits, Thin Lizzy ou Mötley Crüe. Mais recentemente, fotografou R.E.M., Madonna, Lenny Kravitz, Snoop Dogg, Lady Gaga, the Killers, Alicia Keys, Miley Cyrus (a capa do álbum de 2020 Plastic Hearts é de Rock), Yeah Yeah Yeahs, Queens of the Stone Age, Daft Punk, Black Keys ou MGMT, como assinala a revista Variety.

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"Queen II" Mick Rock

Como director de fotografia ou fotógrafo de cena, esteve nos filmes The Rocky Horror Picture Show (que originou uma série de livros), Hedwig — A Origem do Amor e Shortbus. Em 2017, foi ele próprio alvo de um documentário, Shot! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock. A propósito deste filme, falou com a revista Rolling Stone sobre a sua carreira, que considerava inevitavelmente marcada por Bowie e Reed. “Não só eram meus verdadeiros amigos, eram também os meus verdadeiros heróis”, recordava sobre a generosidade dos dois músicos na sua vida pessoal.

“As estrelas pareciam alinhar-se sem esforço para Mick quando ele estava atrás da câmara; alimentar-se do carisma único de quem fotografava electrizava-o e energizava-o”, diz a família no comunicado que dá conta da sua morte, descrevendo-o como um “homem fascinado pela imagem” que criou “algumas das mais magníficas fotografias que a música rock já viu. Conhecer Mick era amá-lo. Ele era uma criatura mítica”.

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