Moscatel Roxo, a casta que quase desaparecia à bicada

Nos últimos anos, o moscatel roxo ficou na moda, mas a verdade é que há cerca de 20 anos a casta estava em risco de extinção – só existiam 2 hectares em produção, da Bacalhôa. Hoje, estima-se que existam 60 mas com perspectivas de crescimento.

Foto
A casta moscatel roxo esteve à beira da extinção no início deste século. A culpa, dizia-se, era dos pássaros. DR

Em matéria de moscatéis licorosos da Península de Setúbal temos duas categorias distintas: o moscatel de Setúbal e o moscatel roxo. São duas variantes daquela que será uma das castas com mais ramificações no mundo. No fundo, moscatéis há muitos.

Nos últimos anos, o moscatel roxo ficou na moda (uma boa moda), mas a verdade é que há cerca de 20 anos a casta estava em risco de extinção – só existiam 2 hectares em produção, da Bacalhôa. Hoje, estima-se que existam 60 mas com perspectivas de crescimento, visto que os produtores percebem que o sacrifício de produzir uvas da casta compensa.

Tais sacrifícios têm que ver com o carácter precoce da casta (amadurece antes de as uvas brancas estarem prontas para vindimar), com as baixas produções face ao moscatel de Setúbal, com alguma dificuldade na estabilização dos vinhos (ficam turvos durante muito tempo) e – o mais curioso – com gula dos pássaros.

Os pássaros são verdadeiros comilões de uvas. E os produtores vivem bem com isso. Quando diferentes castas amadurecem ao mesmo tempo, os pássaros bicam um bocadinho em fernão pires, um bocadinho no arinto e um pouco noutra casta qualquer. Nada de mal. Sucede que, como o moscatel amadurece muito cedo, os pássaros atiram-se esganadamente a estas uvas rosadas e muito doces, de tal forma que quando o produtor passava pela vinha constatava que boa parte tinha sido vindimada à bicada. Vai daí, arrancaram-se as vinhas.

E por que razão se voltou a plantar a casta? Porque, por um lado, quem tinha vinhos da casta com alguma idade (Bacalhôa) começou a ganhar prémios em provas nacionais e internacionais. Por outro, Domingos Soares Franco (José Maria da Fonseca) criou um rosé de moscatel roxo que foi e ainda é um sucesso. Assim se evitou a extinção da casta. Ainda bem.


Este artigo foi publicado no n.º 2 da revista Solo.

Sugerir correcção
Comentar