Há quem tenha percebido há muito que a Terra é um sistema complexo, do qual não somos donos mas seres interdependentes, contribuindo, com os outros seres vivos do planeta, para o equilíbrio atmosférico, e climático, em que prosperamos como espécie. Passaram mais de cinco décadas desde que James Lovelock e Lynn Margulis desenvolveram esta teoria, a que deram o nome Gaia, e ver Lovelock, já com 102 anos, partilhar no jornal britânico The Guardian, com amargura, as suas expectativas quando à Conferência do Clima que decorre desde este domingo, em Glasgow, é doloroso, tendo em conta o que temos vindo a fazer à biosfera.

A história de Lovelock, das suas conversas com Carl Sagan e da epifania que o levou até Gaia – nome grego para a deusa da Terra –, abre o livrinho Earth System Science - A very short introduction, de Tim Lenton. São 11 euros, na Amazon, dinheiro bem gasto por uma obra que, como centenas de outras, poderia ter ajudado o dono deste gigante das vendas online a perceber quão “finita e frágil” é esta esfera azul acima da qual ele, como boa parte da humanidade, se tem colocado, sem precisar de ir ao espaço para, lá de cima, ter essa “epifania”: a expressão é do próprio, que a usou para se desculpar perante as críticas à corrida espacial em que se envolveu, com outros super-ricos.

O planeta não é frágil. As condições para a nossa sobrevivência nele é que estão fragilizadas. E o clima não é a causa. É a consequência. Para interferir com a sua actual evolução, precisamos de um compromisso global em defesa da biodiversidade que vá muito para além de proclamações de amor às florestas, e de anúncios para salvar cimeiras ou polir a imagem pública de quem nelas participa. E precisamos de uma aceleração da transição energética. Ao mesmo tempo que se comprometem com prazos, há demasiados países a adiar o fim da exploração de combustíveis fósseis, a gastar dinheiro público subsidiando uma economia assente nas fontes de energia que nos trouxeram até aqui, e a investir menos do que deviam nas alternativas.

Numa crónica publicada no site do movimento para a Transição (em inglês), o activista Rob Hopkins compara a nossa relação mais recente com o planeta e a crise climática com os cinco degraus do processo de luto explanados pela psiquiatra Elizabeth Kübler-Ross no seu livro  seminal ‘On Death and Dying’, de 1969: Há quem ainda esteja em negação (e recuse que a acção do homem seja causa das alterações climáticas). Outros passaram a reagir com raiva (veja-se algumas reacções ao discurso de Greta Thunberg) , e, na COP 26, ainda há uns quantos em negociação (sim, temos de fazer algo, mas…), enquanto a geração a quem deixaremos a casa a arder entra em depressão (já muito se escreveu sobre a eco-ansiedade).

Precisamos, claramente, que, sem precisarem de ir ao espaço, sociedades e decisores passem ao último estádio, o da aceitação, não para assumir uma qualquer morte, mas a passagem para uma vida diferente, que é o que nos é pedido. No PÚBLICO; a propósito da cimeira de Glasgow, partilhamos histórias de jovens que procuram um emprego verde. Nas comunidades em que a transição é assumida como um passo para um bem-estar, as pessoas não desistem, agem. Movidos "não pelo medo, mas pela esperança". Que deveria ser, como nos pediu sir David Attenborough, num dos mais clarividentes discursos da abertura da COP26, o motor dos nossos gestos. 

Por cá, continuamos a olhar para a COP 26 com os Pés na Terra e através desta página, no Público. Regressamos para a semana, e se até lá tiver sugestões e críticas pode escrever para acoentrao@publico.pt. Entretanto, aqui ficam mais algumas sugestões de leitura.

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