São 700 páginas na edição portuguesa, é talvez, segundo Isabel Lucas, o romance mais convencional de Jonathan Franzen. Mas é um dos mais bem conseguidos: pela contenção, pela atenção ao detalhe e ao capricho humano. E pela clareza, renunciando às grandes tiradas sobre a condição do mundo. E pela capacidade de seduzir o leitor atrás da imperfeição de cada personagem que o narrador parece descobrir ao mesmo tempo que quem lê (é o jogo da ilusão da partilha de que são capazes os grandes autores). 

Encruzilhadas, um romance familiar, é a base de uma conversa entre Lisboa, Portugal, e Santa Cruz, Califórnia, EUA.

Menos uma conversa sobre o livro, na verdade, do que sobre a relação de Franzen com a literatura e o seu desassombro de sempre perante o mundo, a política, as redes sociais e a sua falta de ironia... "Não escrevo livros para que as pessoas gostem de mim. Quero que as pessoas gostem dos livros. Isso leva a outra questão: quero que gostem de mim enquanto figura pública? As evidências têm mostrado que essa não é a minha maior prioridade."

 

Luiz Schwarcz, o fundador, em 1986, no Brasil, da carismática Companhia das Letras, quis escrever um livro de memórias com a complexidade da ficção. Em O Ar que me Falta passa a história da sua família, que fugiu para o Brasil do terror nazi que se vivia na Europa na Segunda Guerra, e da sua depressão. É um relato íntimo e corajoso.

Diz nesta conversa com Isabel Coutinho que usou nas suas memórias algumas das técnicas da ficção. Ao escrever um romance, um escritor “passa meses solitário criando relações na cabeça, inventando personagens”, passa meses a “transferir vulnerabilidades pessoais dele para aquelas personagens”. E assim Luiz Schwarcz... “O que eu tentei fazer foi escrever não-ficção com a complexidade que algumas vezes só a ficção tem. Não julgo as personagens, não dou uma visão só, às vezes é só o que eu posso fazer para retribuir o que essas personagens representaram para mim: tentar olhar para elas. Durante a minha juventude eu fui muito contra a minha mãe. Eu falo no livro que eu me alinhava com o meu pai porque ele era o pólo mais fraco. Mas hoje entendo que de alguma forma tomei um partido que no livro consegui não tomar. Mas na vida eu tomei. Mas achei que para fazer um bom livro tinha de investir nessa complexidade."

 

Famílias, ainda, mas das electrónicas não convencionais. Voltam a reunir-se em Braga, no festival Semibreve, até domingo. Muita música para experimentar, como a de Laurel Halo, que a leva a pensar em neblina, engarrafamentos ou sexo.

 

Ainda nas electrónicas: Delta Estácio Blues, segundo álbum em nome próprio de Juçara Marçal, cantora de 59 anos, voz dos Metá Metá, "questiona o Brasil do presente, explora o passado da música negra e encontra novos futuros": na síntese de Daniel Dias.

 

Em Leiria, Nuno Sousa Vieira apresenta duas exposições em simultâneo: Quando o Chão nos foge dos Pés, no Museu de Leiria, e Uma Vida Inteira, no Banco das Artes. José Marmeleira revisita uma obra que se tem feito em permanente transformação, numa relação singular com o espaço do atelier, uma fábrica desactivada e a experiência do corpo do artista e do espectador.

 

Na Gulbenkian, em Lisboa, Fernão Cruz mergulha na sua história pessoal para arquitectar uma exposição "notável", segundo Luísa Soares de Oliveira. Retrato do artista posto a nu por si próprio: Morder o pó.

 

Funaná, Raça e Masculinidade é a história, detalhada, de um género musical, o funaná. É, através dessa história, uma outra, a de um país, Cabo Verde, da colonização à independência. E daí até à diáspora. O livro é de Rui Cidra com quem Mário Lopes conversa para sabermos mais sobre a história não contada da “música do diabo” que é marca de identidade, som de libertação.

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