Demolição do palacete de Vale de Amores é mais um “apagão de memória” nas margens do Douro

Edifício com quase 100 anos vai ser completamente demolido para dar lugar a habitação de luxo em Gaia. Património azulejar não deve ser salvaguardado. “É triste e miserável”, diz historiador de arquitectura

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A história tem-se repetido vezes sem conta, mas Francisco Queiroz não se conforma com ela. Nos últimos vinte anos, diz o historiador, “há uma enorme pressão para construir habitação de classe média e alta” nas margens do Douro, outrora local onde era difícil intervir. É um “processo marcado por polémicas e demolições” que tem agora mais um exemplo: o palacete do Vale de Amores, na margem esquerda do rio Douro, em Vila Nova de Gaia, vai ser completamente demolido. Junto ao cais do Cavaco, empresários belgas vão investir 85 milhões de euros para construir um empreendimento de luxo.

A Câmara de Gaia confirma. A “6 de Agosto de 2009” foi aprovada uma “operação de loteamento”, cujo alvará “prevê a demolição do edifício do palacete”. A área de construção, que já se encontra vedada, é de 31 mil metros quadrados e será distribuída em quatro lotes, dois deles com cinco pisos acima do solo.

O palacete de Vale de Amores foi construído em 1925 por ordem de Primo Monteiro Madeira, também proprietário da Casa Primo Madeira, na Rua do Campo Alegre, no Porto, edifício nobre onde hoje está instalado o Clube Universitário do Porto e que teve intervenções da autoria do arquitecto José Marques da Silva.

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Plantas das fachadas do edifício, um projecto de 1925 Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia

Um espaço para namorar

Germano Silva, jornalista e historiador, explica o nome Vale de Amores. “A malta nova ia daqui para lá de barco para namorar. Havia bosques e sombras e as pessoas gostavam de ir para ali”, conta. Naquele mesmo vale, existia a Quinta de Vale de Amores, propriedade do famoso Álvaro Gonçalves, “o Magriço” a quem Luís de Camões se refere na estrofe 68 do Canto VI de Os Lusíadas.

O palacete em Vila Nova de Gaia “não está classificado nem abrangido por servidão administrativa do património cultural”, informa a Direcção Regional de Cultura do Norte questionada pelo PÚBLICO. Mas “sempre foi um ícone da paisagem”, sublinha Francisco Queiroz, contando que não só é um edifício amplamente fotografado como é destino frequente de quem gosta de explorar espaços abandonados.

É nesse estado de abandono que ele está há pelo menos 20 anos, estima o historiador de arquitectura, anuindo que é compreensível que ali se faça um projecto. O que não entende, continua, é o desrespeito pelo que existe. “Não compreendo como se autoriza que pura e simplesmente desapareça. Nem compreendo como é que alguém pega naquilo e não aproveita nada. É um apagão de memória. Podia ser mantido o que tem de bom. É triste e miserável.”

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Palacete tem vistas privilegiadas para o rio Douro Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia

Na época em que foi construído, aquele era um “edifício bonito, com boa arquitectura, desenhado por alguém com talento”, o arquitecto J. Pinto de Oliveira, aponta. E fazer tábua rasa disso é lamentável para Francisco Queiroz: “Quando vem alguém fazer arquitectura por cima do que existe é uma falta de respeito.”

Apesar de quase nada sobrar do interior, há uma construção exterior nobre que poderia preservar-se e um património azulejar que deveria ser salvaguardado. “A Câmara de Gaia tem obrigação de o proteger. No limite teria de retirar os azulejos e preservá-los”, reclama, citando a lei de 2017 que impede a remoção de azulejos das fachadas. Os que existem no Vale de Amores são do tempo da República e foram feitos na Fábrica das Devesas.

No terreno com vistas para o rio, as empresas Thomas & Piron e Promiris vão construir 256 apartamentos, de T0 a T5, com preços a começar nos 150 mil euros e a chegar aos 900 mil. O início da empreitada está previsto para Setembro de 2022.  

Um país descaracterizado

O caso deste “edifício emblemático nas margens do Douro, um dos mais icónicos”, é mais uma machadada. “Empobrece a nossa paisagem e património”, lamenta Francisco Queiroz. “Há uma falta de planeamento crónica em Portugal. Os projectos são feitos a olhar para o umbigo e na prática, mesmo com a existência de programas como o Polis, as coisas falham. Não há uma lógica de continuidade, não se articula o que existe com o novo.”

Há outros finais possíveis. O historiador de arte nomeia tristes (e comuns) casos de fábricas de cerâmica de Gaia com 150 ou 200 anos que foram completamente destruídas, mas relembra também o exemplo do palacete Marques Gomes, na Afurada, adquirido para fazer um condomínio de luxo e capaz de preservar no projecto algo do que ali havia. Se já nada houver a fazer para travar a demolição do palacete de Vale de Amores, uma esperança sobra a Francisco Queiroz: “Que se salvem, pelo menos, os azulejos. E se crie consciência para o futuro.”