Marcelo: a mão visível que atua no PSD

O Presidente recebeu um dos opositores ao líder do PSD na véspera da votação do OE, aparentemente, para discutir o calendário das legislativas. Ficou evidente que Marcelo é uma mão visível no processo interno do PSD, o que se reputa de gravíssimo e coloca muito mal o chefe de Estado.

1. A crise política instalada com o chumbo do Orçamento de Estado (OE) só começou a ser visível para muitos a partir do momento em que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou ao país, sem tirar nem pôr, que um chumbo do OE levaria inevitavelmente à dissolução da Assembleia da República. Marcelo não colocou condições, cenários, determinou sim o destino do país. Tão depressa o fez que se deve ter arrependido de imediato, quando percebeu que isso teria duas consequências evidentes. A primeira, que o país poderia entrar numa situação de ingovernabilidade, porque não é claro que novas eleições concedam a qualquer força política uma maioria clara, atenta a fragmentação do voto a que se tem assistido. A segunda consequência, talvez a que menos antecipou, é que as suas palavras poderiam interferir claramente no processo eleitoral interno no PSD e Marcelo acompanhava desde há muito, aparentemente, o processo no PSD, quiçá muito mais do que imaginamos.

2. A atitude do Presidente ao longo dos anos foi sempre percecionada pelas pessoas como isenta, equidistante dos processos e interesses partidários. Mas para um militante do PSD, como sou, relativamente descomprometido, muitas das atitudes ou intervenções do Presidente sempre me pareceram favorecer mais o Partido Socialista e o seu Governo minoritário, do que verdadeiramente refletirem uma ação isenta de gestão dos equilíbrios do Estado e com respeito total pela autonomia dos partidos, dos seus militantes e dos seus processos internos próprios.

3. Todavia, a crise do OE trouxe ao conhecimento de todos, até pelas palavras do Presidente da República, que este tinha iniciado diligências de última hora, anteriores ao dia da votação do OE e com chumbo anunciado, com vista à sua viabilização. Em causa estariam contactos quer com deputados do PSD, quer com o PSD Madeira. Inédito, inacreditável, é o que posso dizer. Para que se perceba, o Presidente da República admite que iniciou contactos que visavam, à revelia do líder da oposição, do Presidente do PSD Rui Rio, levar a que os deputados da Madeira ou outros deputados do PSD pudessem pela ausência ou voto a favor viabilizar um OE do Partido Socialista. Note-se, um OE que é mau para o país e que teria consequências nefastas para os cidadãos, para o crescimento económico e para a sustentabilidade das finanças públicas em face das negociações com a esquerda.

4. Mas não terminou aqui, o Presidente aceitou receber um dos opositores ao Presidente do Partido na véspera da votação do OE, aparentemente, para discutir o calendário das eleições legislativas com a dissolução pré-anunciada do Parlamento. E esta reunião antes de Marcelo se reunir com os partidos (e, portanto, com o presidente do PSD) e com o Conselho de Estado. Ficou evidente no dia 26 que Marcelo é uma mão visível no processo interno do PSD, o que se reputa de gravíssimo e coloca muito mal o chefe de Estado. Há cerca de dois meses, uma jornalista próxima do Presidente da República anunciou em direto na televisão que um dos candidatos já tinha confirmado ao Presidente que avançava nas eleições internas do PSD, mais um facto que passou despercebido a muitos, mas denota que o Presidente sabia, e não foi desmentido.

5. Com eleições legislativas o país não pode ficar refém dos processos internos do PSD, seria injustificável e espanta-me a ausência de reação dos outros partidos a estas iniciativas do PR. Havendo eleições legislativas as mesmas devem acontecer rapidamente, parece-me evidente, a bem do país, mais do que a circunstância de cada militante, ou dirigente do PSD, ou dos próprios partidos.

6. Rui Rio avisou que o chumbo do OE podia acontecer e era um cenário real, ao contrário de anos anteriores. Foi acusado de estar “agrafado à cadeira”. É mesmo não o conhecer. Acompanho-o há muitos anos, conheço as suas virtudes e os seus defeitos. Rio coloca sempre o interesse nacional à frente do interesse do partido e do seu próprio. Acusaram-no de não fazer oposição. A oposição foi a necessária em cada momento. Em 2020, Rio iniciou em fevereiro, com o congresso, o seu segundo mandato no Partido. Em março fomos abalroados pela pandemia, algo que não foi assim há tanto tempo. Morriam pessoas, o SNS entrava em falência, tudo faltava e o PSD esteve ao lado do país, com sentido de Estado. Não fosse o PSD e muitos dos Estados de Emergência necessários para combater a pandemia não teriam sido aprovados no Parlamento. Foi assim durante todo o ano de 2020 e inícios de 2021. Depois vieram as autárquicas, que com a liderança de Rui Rio permitiram que o PSD recuperasse câmaras municipais muito importantes, como Lisboa, Funchal, Portalegre, Barcelos e outras tantas, e até historicamente no Alentejo.

7. Podemos mudar a história escrita e das palavras, mas não mudamos os factos. Rio é livre e tem-no demonstrado. Talvez por isso o Presidente da República atue desta forma. Quanto a mim, não tive e não tenho crises de fé.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico