O legado da pandemia

É apontada a leitura como instrumento de desenvolvimento de conhecimento a incrementar em todos os níveis de aprendizagem, assim como as tutorias em pequenos grupos, em momentos depois das aulas.

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EPA/ABIR SULTAN

O relatório Education at a Glance, da OCDE, publicado em Setembro, alerta para uma multiplicidade de efeitos e lições aprendidas no campo da educação com a pandemia da covid-19.

Os confinamentos revelaram a incapacidade de as famílias cumprirem um papel que não é seu: o de ensinarem e promoverem aprendizagem formal, o que se traduz em perdas significativas de oportunidades de aprendizagem, comprometendo o futuro dos alunos e a vida económica e social das comunidades, de forma mais ou menos alargada. Os desníveis económicos entre famílias traduziram-se em desníveis de oportunidades de apropriação de conhecimento para os alunos, através de poucos ou frágeis recursos tecnológicos e possibilidades de acompanhamento por parte das famílias.

Uma boa notícia é que conseguimos perceber que as perdas não são irrecuperáveis. Requerem investimento a diversos níveis depois de averiguada a situação caso a caso.

Esta recuperação, que não encontra espelho em crises anteriores e traz à luz a questão da iniquidade, ou seja, as grandes diferenças económicas das famílias fazem com que os seus filhos não tenham tido acesso ou tenham tido um acesso deficitário às aulas online e à entrega de recursos através das plataformas digitais. Os modelos híbridos devem ser tomados com as devidas precauções pois não beneficiarão todos os alunos e respectivas famílias, contribuindo para perdas económicas e sociais no futuro.

A escola em si promove sem mais a equidade de acesso ao conhecimento, à instrução, à aprendizagem, à educação.

O relatório refere que os recursos devem estar alinhados com as necessidades. E estes recursos de recuperação podem tomar as formas mais variadas desde que consigam suprir faltas e lacunas de uma forma válida e positiva, provocando significativo impacto e desenvolvimento. É apontada a leitura como instrumento de desenvolvimento de conhecimento a incrementar em todos os níveis de aprendizagem, assim como as tutorias em pequenos grupos, em momentos depois das aulas.

É evidenciada de forma clara a necessidade de atenção aos professores, uma vez que continuam a ser uma peça central do trabalho desenvolvida na escola. A sua formação deve servir o propósito do seu trabalho, onde não podem ficar de fora as competências digitais. A satisfação pessoal dos professores com a sua profissão, o seu bem-estar pessoal e emocional estão relacionados com o sucesso das aprendizagens dos seus alunos. Ficou claro que os professores precisam de sentir que estão fortes e capazes de enfrentar mais este desafio de recuperação das aprendizagens e que para isso a aprendizagem com os seus pares é fundamental a par de formação e desenvolvimento significativo.

O desenvolvimento das capacidades formais de mentores e de possibilitar mentoring recíproco será das mais valiosas e duradouras ferramentas que os professores podem adquirir nesta altura, em que a prática e a experiência alcançada ao longo de anos e as trocas informais com os colegas trouxeram ao de cima o melhor do networking: a efectiva colaboração entre pares, para o bem de todos, o que inclui aquele que partilha.

Conforme refere o relatório da OCDE, o legado da pandemia serão as parcerias entre colegas e instituições, as quais devem passar a fazer parte das boas práticas do ensino.

Andreas Shleicher, presidente da Direcção de Educação da OCDE, refere que “sob uma liderança eficaz, uma combinação de autonomia profissional, recursos de apoio e a colaboração pode ajudar a garantir que as regras se tornem orientações e boas práticas, e, em última análise, que as boas práticas se tornem cultura”.

As análises e estatísticas de nada servem se não lhes dermos a devida importância e tirarmos delas a informação importante e necessária para o nosso desenvolvimento. Muito já está a ser feito! Mãos à obra!