Alguém nos dê um abraço ou um empurrão

Sinto-me a envelhecer, a perder ânimo, e cada vez mais ridícula e triste. Enredada numa teia de tristezas que por mais que se solte de um lado, logo se refaz do outro. Não quero ser esta pessoa, eu não sou esta pessoa, e também sou.

Foto
Kristina Flour/Unsplash

“Eu quero sentir”, disse Nietzsche. Eu também quero. Estou tão cansada que não sinto mais do que cansaço. Tudo o resto me passa o lado. Não sinto alegria, daquela pura, genuína, há anos. Os meus sorrisos tornaram-se um esforço hercúleo muscular de esticar os cantos da boca na horizontal. Sou uma adulta triste. Olho à minha volta e penso se não estaremos em maioria. Adultos tristes, parece quase uma redundância, um pleonasmo.

Penso que devia começar a correr ou a andar de bicicleta, qualquer actividade que me desembaciasse os olhos. Os olhos dos adultos têm pregas em volta e quase não brilham. Parecem estrelas extintas há muito. Deixei de sentir o mundo. Estou metida numa carapaça de medo e sofrimento. E, ainda assim, vou avançando no quotidiano como uma tartaruga velha, carregando a casa e escondendo-me nela. Depois de tantos anos no meio da confusão, uma pessoa não sabe como sair.

O terapeuta dá-me conselhos que não considero acertados. Fala-me da “mãe”. Mas qual é a novidade? Todos os ajudantes da cabeça falam na mãe. As mães, pelos vistos, estão sempre na origem de todo o mal. Penso se os meus filhos também julgarão o mesmo quando crescerem. Tenho um resto de frango que encomendei no dia anterior através da Uber para comer ao almoço. Estou sozinha em casa com o gato. Os miúdos estão com o pai. É a única vantagem de um divórcio, poder passar um domingo em silêncio. Faz muita falta a uma mãe divorciada, o silêncio.

Sinto-me a envelhecer, a perder ânimo, e cada vez mais ridícula e triste. Enredada numa teia de tristezas que por mais que se solte de um lado, logo se refaz do outro. Não quero ser esta pessoa, eu não sou esta pessoa, e também sou. Não sinto nada além de cansaço e tristeza. E eu quero sentir, como disse o Nietzsche. Sentir num sentido amplo, com todas as cores. As escuras, as claras e as intermédias. Sei que não fui talhada para sofrer e estou encurralada aqui. Em mim própria. Tenho a certeza de que voltando a sentir além do cansaço serei eu novamente. Só há conhecimento com o sentir dentro. Não é algo que se consiga sozinho. É preciso algo exterior.

Ninguém existe sozinho. É preciso o outro. E eu já fui a outra para muita gente. E gosto de ter esse papel. Mas agora o cansaço só me permite ser eu um poucochinho. Toda a gente pode ser salva a qualquer momento. Por isso pergunto: todos precisamos nalgum momento de alguém que nos dê um abraço ou um empurrão?