Braço-de-ferro entre PSOE e Podemos por causa da reforma laboral espanhola

Parceiros de coligação continuam longe de um acordo sobre uma das suas principais bandeiras políticas. Ministra do Trabalho podemita teme “ingerência” socialista nas negociações com patrões e sindicatos.

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Yolanda Díaz, ministra do Trabalho de Espanha, não quer que seja o PSOE a liderar a reforma laboral Rui Gaudencio

Sete meses depois de Pablo Iglesias ter abandonado o Governo de Espanha para fugir ao desgaste entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o Unidas Podemos, os parceiros da coligação de esquerda continuam a acumular tensões e pontos de fractura. A falta de entendimento sobre a reforma laboral continua a ser um obstáculo difícil de ultrapassar e tem contribuído para expor, uma vez mais, as divergências ideológicas e programáticas entre as partes.

Os representantes dos dois partidos, incluindo ministros, chefes de gabinete e porta-vozes parlamentares, reuniram-se na segunda-feira no Congresso dos Deputados para tentarem encontrar pontes sobre uma das principais bandeiras políticas do executivo. Mas, ao fim de duas horas de discussão, foram incapazes de chegar a um acordo.

PSOE e Podemos garantem que a reunião foi “cordial” e “construtiva” e que as negociações vão continuar normalmente, mas a imprensa espanhola detecta um ambiente de crise ou, pelo menos, de pré-crise – algo que, tendo em conta o crescimento do Partido Popular (PP) nas sondagens e o cansaço do Governo motivado pelo combate à pandemia, não é, de todo, desejável, para ambos os parceiros de coligação.

No centro da discórdia sobre a reforma laboral está o peso que cada um dos partidos entende que deve ter nas negociações com os parceiros sociais.

Yolanda Díaz, ministra do Trabalho e segunda vice-presidente do Governo, do Unidas Podemos, não vê com bons olhos a participação da socialista Nadia Calviño, ministra da Economia e primeira vice-presidente do executivo – ou de um representante seu – nas discussões com os sindicatos e as entidades patronais.

Segundo o El País, Díaz vê nesta possibilidade – alegadamente um pedido expresso do presidente do Governo, Pedro Sánchez – uma “ingerência” na sua função e nas suas competências. A ministra do Trabalho teme que Calviño assuma a liderança do processo e vê nesta jogada uma estratégia do PSOE para tentar assegurar que a reforma laboral, a acontecer, é vista pela opinião pública como um feito do Governo e não do Unidas Podemos.

“Isto não é sobre quem lidera, mas sobre o facto de irmos fazer a principal reforma do mercado de trabalho”, alertou Yolanda Díaz, citada pelo El Mundo.

“Achamos que Nadia Calviño, que é uma pessoa que sempre se mostrou contra a reforma laboral, talvez não seja a mais indicada para pilotar este processo”, assumiu Isa Serra, porta-voz do Unidas Podemos no Congresso, citada pelo El Diario.

Promovida a vice-presidente, para o lugar de Iglesias, Yolanda Díaz olha para a reforma laboral como um objectivo fundamental para deixar uma marca pessoal na governação PSOE-Podemos e para cimentar a sua posição na cúpula do Governo.

O braço-de-ferro entre PSOE e Unidas Podemos – que, apesar de estarem em minoria no Congresso e dos muitos altos e baixos dos últimos meses, governam juntos desde Janeiro do ano passado, fruto de um acordo para uma legislatura “progressista” – sobre a reforma laboral acontece numa altura de tensão entre as duas forças políticas no Parlamento.

A plataforma de esquerda ameaçou apresentar uma denúncia por prevaricação à presidente do Congresso, a socialista Meritxell Batet, depois de esta ter validado a perda do lugar do agora ex-deputado podemita Alberto Rodríguez, condenado por ter agredido um polícia em 2014.