Na Madeira, jovens e crianças descobriram beleza nas sombras — e delas fizeram um herbário

Inspiradas pelo Grande Herbário de Sombras de Lourdes Castro, jovens e crianças madeirenses registaram, com luz, sombra e criatividade, as folhas e flores da ilha. O Sol Marca a Sombra é uma exposição promovida pela Fundação Cecília Zino e fica no Museu de História Natural do Funchal até 31 de Dezembro.

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André Moniz
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Em mais um dia de oficinas criativas em contacto com a natureza madeirense, foi pedido a jovens que escolhessem uma planta que os representasse. No jardim do Museu de História Natural do Funchal, quase todos se reconheceram nas espécies que lá crescem, com excepção de uma das crianças, mais tímida que as restantes. Já perto de desistir, encontrou a mimosa pudica, singular pelas suas folhas que se fecham em reacção ao toque. Espantada, gritou: era aquela a sua planta.

Durante cinco meses, a Fundação Cecília Zino promoveu 14 workshops para crianças e jovens em situação de acolhimento residencial, para que a arte, os artistas, a cultura, descessem de um pedestal e sujassem as mãos de terra. Os resultados do projecto O Sol Marca a Sombra estão agora em exposição até 31 de Dezembro, no Museu de História Natural do Funchal. A entrada é gratuita, de terça-feira a sábado, das 10h às 18h.

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Oficinas de O Sol Marca a Sombra, com crianças e jovens em situação de acolhimento residencial. André Moniz

A partir das sombras construíram-se os últimos meses de trabalho: teatros de sombras, desenhos, técnicas fotográficas, jogos. Para Sonja Câmara, responsável pela curadoria e concepção da exposição, “a sombra não é um negativo, mas mais uma presença”. Inspirado no Grande Herbário de Sombras de Lourdes Castro, do Verão de 1972, foi criado um novo herbário emocional da Ilha da Madeira. Além do registo das plantas encontradas pelos jovens, entre os 7 e os 16 anos, foram inscritos outros frutos das oficinas: emoções e aprendizagens sobre as quais cada um reflectia no final de cada dia. A 9 de Dezembro será lançado o livro Herbário de Emoções.

No seu Grande Herbário de Sombras, Lourdes Castro cataloga cerca de cem espécies botânicas, através da impressão das sombras em papel heliográfico, que sobrevivem em reacção à luz solar. “Flores, folhas, matérias efémeras e vulneráveis a ganhar a eternidade pelo registo das suas sombras. Do seu desenho e contornos.” A 15 de Outubro, dia de inauguração no Museu de História Natural do Funchal, em que o P3 esteve presente, o grupo de crianças em situação de acolhimento residencial visitou a exposição e todos puderam apontar, com orgulho, quais as suas criações. A esperança de Sonja é que a experiência fique gravada, como as sombras no papel, na memória dos jovens.

Ao entrar na primeira sala da exposição, há lâmpadas que descem do tecto e, num movimento hipnotizante, circundam sem parar pequenas plantas em duas porções de terreno: um jogo de luz e sombra da autoria do colectivo Berru. Além de sensibilizar para a preservação da biodiversidade, O Sol Marca a Sombra quis estimular o trabalho em comunidade e a empatia. Por isso, foram convidados por Sonja quatro artistas para residências artísticas, mas o seu trabalho não se fez apenas entre paredes. Andreia Santana, Berru, Carolina Vieira e Luísa Salvador dinamizaram também workshops com os jovens. As suas obras, agora em exposição, iniciam o acervo da Fundação Cecília Zino, instituição particular de solidariedade social focada no apoio a jovens e crianças madeirenses, presidida por João Sá Mota.

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Dois dos vários trabalhos em exposição, feitos pelas crianças e jovens. Técnica usada: cianotipia, impressão fotográfica em tons azuis. DR
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Dois dos vários trabalhos em exposição, feitos pelas crianças e jovens. Técnica usada: antotipia, impressão de pigmentos extraídos de vegetais sensíveis à luz solar. DR

“O importante era desmistificar o processo artístico, não o intelectualizar, tentar que fosse algo quotidiano. Tirar o artista de um pedestal. Fomentar o convívio e ir além dos programas escolares”, explica Sonja Câmara, em conversa com o P3. “[​É importante] democratizar o processo criativo, que ainda não é tão acessível como deveria.”

Ao crescer na Madeira, Sonja tinha a sensação de que vivia à margem. Tudo acontecia em Lisboa, no continente, mas não tinha como lá chegar. “Sentia que a arte e a cultura não me chegavam. Quando estás numa ilha queres sair, ver o mundo.”

Dias do Verão de 2021 preenchidos por workshops para crianças e contacto com a natureza, no âmbito do projecto O Sol Marca a Sombra. André Moniz
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Trabalhos feitos por jovens nas oficinas de O Sol Marca a Sombra, que decorreram entre Abril e Setembro de 2021.
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Já na capital a estudar Design Gráfico, há um dia que guarda com especial carinho: “Lembro-me de ir ao CCB ver uma exposição da [revista] KWY, de que fazia parte a Lourdes Castro. Achei o trabalho dela fascinante, e quando percebi que era madeirense, a minha cabeça rebentou”, conta. “Alguém da Madeira tinha conseguido tanto, gostava que agora os mais novos sentissem o que eu senti. Com as ferramentas certas, com quem aposte em nós e nos abra portas e nos mostre um pouco de luz, há muita coisa possível.”

Uma década depois, poder fazer a curadoria e concepção deste projecto, e com jovens da Madeira, “é muito simbólico”. O nome O Sol Marca a Sombra surgiu de forma natural, inspirado numa frase em que Lourdes Castro explica, descomplicada, o trabalho que originou o Grande Herbário de Sombras: foi o Sol, marcou a sombra das plantas. Como recorda o curador e crítico de arte Pedro Faro no texto que acompanha esta exposição, em referência a Junichirô Tanizaki: “Se não fosse pelas sombras, não haveria beleza”.

O PÚBLICO viajou a convite da Fundação Cecília Zino

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