Militares nas ruas do Equador contra a violência do narcotráfico

Os homicídios no país sul-americano dispararam nos últimos meses e levaram o Presidente a declarar o estado de emergência. Activistas indígenas dizem que o objectivo é impedir protestos.

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Militares começaram a patrulhar as cidades equatorianas Marcos Pin / EPA

Sebastián Javier, de onze anos, estava numa gelataria de Guayaquil na tarde do último domingo quando foi baleado por quatro vezes. A criança acabou por morrer, vítima colateral de uma troca de tiros entre a polícia e um ladrão armado em pleno dia. A morte trágica de Sebastián chocou os equatorianos, mas seria apenas um dos doze homicídios registados na maior cidade do país naquele dia.

A onda de violência que está a varrer o Equador levou o Presidente Guillermo Lasso a decretar no início da semana o estado de excepção para todo o país durante dois meses. “Todos nos comovemos pela dolorosa partida de uma criança, um filho, a cujos pais manifestamos as nossas condolências. Nada poderá reparar esta perda terrível, mas todos devemos juntar forças”, afirmou o Presidente quando anunciou a medida.

O Equador vive um período de extrema insegurança, sobretudo em Guayaquil, a maior cidade do país com mais de três milhões de habitantes, que Lasso atribui ao crescimento da actividade do narcotráfico internacional. “Quando o narcotráfico cresce, aumentam também as execuções e os homicídios, os roubos a casas, veículos, bens e às pessoas”, declarou o chefe de Estado.

Lasso prometeu ainda protecção jurídica para os membros das forças de segurança e do Exército que venham a ser implicados em acções violentas pela justiça, pedindo-lhes para que actuem com “valentia”. Em Guyaquil, a presidente da Câmara Municipal, Cynthia Viteri, chegou a propor um projecto de lei que permite o porte de armas pela população civil para se defender.

Os dados mostram que a criminalidade violenta se está a agravar no Equador. Até meados de Outubro, o país registava 1885 homicídios, superando a marca total do ano anterior, de 1372. O número de mortes violentas também é mais elevado face a 2019, ano anterior ao da pandemia, quando foram verificados cerca de 1200 homicídios no mesmo período.

Guayaquil é palco de cerca de um terço das mortes violentas, que acontecem de forma cada vez mais indiscriminada, frequentemente em plena luz do dia e à frente de muitas testemunhas. O governador de Guayas, Pablo Arosemena, disse que a província trava “uma guerra”. “O que vivemos hoje era o que vivia a Colômbia nos anos 1980 e 90”, afirmou, referindo-se ao conflito com os cartéis internacionais do tráfico de droga naquele país.

Na rota do tráfico

A declaração do estado de excepção acontece cerca de duas semanas após o mais sangrento motim numa prisão do país, em que mais de cem presos morreram. O incidente, que se prolongou durante vários dias até as forças de segurança conseguirem retomar o controlo, foi atribuído a um conflito entre grupos criminosos rivais relacionados com a luta pela supremacia sobre as rotas do tráfico de droga.

Segundo as autoridades equatorianas, a violência urbana no país está vinculada à posição estratégica ocupada pelo Equador nas rotas do narcotráfico. Se, por um lado, se situa ao lado dos maiores produtores de droga (Colômbia e Peru), por outro, está localizado nas duas principais rotas de exportação: através do Oceano Pacífico para os EUA, e através da Amazónia, para o Brasil, explicava recentemente ao El País o especialista em segurança da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Fernando Carrión.

O Presidente equatoriano também chamou a atenção para o facto de o Equador se estar a tornar num país consumidor de drogas, e não apenas via de passagem. Em 2019 foram apreendidas 82,2 toneladas de estupefacientes face a 116,6 desde o início do ano, diz o El País.

A insegurança está também ligada à crescente degradação das condições de vida da população. Num país de 17 milhões de habitantes, mais de cinco milhões de pessoas vive abaixo da linha da pobreza, e os empregos informais são a regra.

A declaração do estado de excepção, que prevê um incremento do policiamento nas ruas com apoio das Forças Armadas e restringe as liberdades de manifestação e associação, foi recebida com desagrado por parte dos líderes dos movimentos indígenas e de sindicatos que estão a organizar acções de contestação contra o Governo.

Em causa estão protestos contra o aumento do preço dos combustíveis, mas também contra um decreto legislativo que prevê a expansão da exploração petrolífera e contra a intenção do Governo em remover controlos ambientais para acelerar a entrada de empresas estrangeiras de mineração na Amazónia. “O Governo não está a resolver os problemas económicos e sociais pelos quais nos estamos a mobilizar, mas pretende aplacar a reacção da população equatoriana instalando uma visão mais militar”, disse à rádio La Calle o presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas, Leonidas Iza.